DIÁRIO DE BORDO
Encontro-me em Porto Alegre, mais uma vez, em meio a varias atividades relacionadas ao meu trabalho, coisas que já tinha relatado em outros textos anteriores aqui no blog. E, por isso mesmo, quase sem tempo para escrever, para me dedicar a alguma outra reflexão que não sejam as ligadas ao concerto com a Orquestra de Câmera do Teatro São Pedro, as primeiras reuniões com o Camilo de Lélis para a montagem da peça O Tubo, texto escrito por mim e que faz um comentário sobre a questão da perda da identidade na velocidade da tecnologia de um mundo onde estamos todos sob o efeito da virtualização, da conversão da realidade em "outra" ficção, na desfragmentação do sujeito humano e mais algumas outras tantas coisas que pertencem ao trato profissional. Enfim, trabalhando muito. Mas, não posso deixar de comentar uma ou outra coisa que me chama a atenção cá por essas bandas, como, por exemplo: O anuncio do diretor de teatro e agitador cultural, Luciano Alabarse de mais uma edição do Porto Alegre em Cena, festival de teatro que acontece já há treze anos nessa cidade e que tem o compromisso de ser um dos maiores eventos culturais do Estado do Rio Grande do Sul.
Hoje, particularmente, me sinto bastante cansado. Começamos os ensaios com a orquestra, e que vão se estender até sábado, para, na manhã de domingo apresentarmos esse espetáculo ao público porto-alegrense. Meus olhos ardem muito, por culpa do ar condicionado ligado nesse apartamento do Grande Hotel, na rua Riachuelo no centro da cidade, estrategicamente situado ao lado do Teatro São Pedro. Está muito frio sim, de bater o queixo.
Ontem à noite tive uma reunião na Cidade Baixa, bairro boêmio de Porto Alegre e tive uma boa impressão. Fazia algum tempo que não sentia uma sensação boa ao andar por ali, o que costumo fazer com freqüência quando venho a esta cidade.
Não gosto do aspecto junkie da população flutuante do bairro, que toma conta das suas ruas e calçadas, não gosto que me ofereçam drogas na rua para comprar num tom agressivo e ameaçador, não gosto de ver essa juventude que traduz um desalento, e uma falta de perspectiva, consumindo exageradamente álcool e outras substâncias. Não por qualquer preceito moral, mas sim, por me inspirar uma baixa auto-estima e uma falta de interesse em outras coisas que não sejam justamente essas: compor uma realidade baseada num equívoco e desinteresse generalizado ao que não seja única e exclusivamente diversão. De qualquer forma, como havia dito antes, achei tudo um pouco mais tranqüilo, talvez por culpa do frio, que acaba também transformando um pouco essa paisagem urbana. Gostei, me senti bem.
Mas, também gostaria de dizer que isso não é um previlégio da Cidade baixa, o Bom Fim , na Oswaldo Aranha padece do mesmo problema, o que me deixa apreensivo sem saber exatamente o que pensar. Sem entrar em qualquer juizo de valor a avaliação que faço é a mesma.
Enfim...Acho que eu gostaria de ver esses lugares com maior atividade cultural e mais diversificada, como em outras partes do mundo e do Brasil, em lugares com essas mesmas características. Para citar um exemplo próximo: A Lapa no Rio, bairro boêmio de grande concentração de pessoas das mais variadas naturezas, mas que, principalmente, a coisa cultural é o tom que converge o interesse de todos.
Mas, voltando ao assunto que gostaria de comentar - o Em Cena e a sua programação -, que com grande antecedência foi anunciado hoje pelo seu Coordenador Luciano Alabarse. O Festival só acontece em Setembro.
Este é o ano Pina Bausch – assim foi anunciado com pompa e circunstancia o evento que este ano traz aos palcos da cidade uma montagem da coreógrafa e diretora alemã, um dos maiores nomes do teatro-dança internacional. O espetáculo que virá, estreado em 2002, traz o tema da infância e, ainda outras tantas montagens de textos de Becket, Tchecov, Nelson Rodrigues, Qorpo Santo, Shakespeare, Will Eno - um dos finalistas ao Pulitzer 2005 - com grupos de várias partes do mundo, do Brasil e claro, como não pode faltar, dos grupos “prata da casa”, além de oficinas e palestras. Ao todo 45 espetáculos nacionais e internacionais. Sem dúvida alguma, mais um “senhor evento”.
Há muito tempo atrás, por acreditar que o “Em Cena” fosse um festival que além de proporcionar ao público gaúcho espetáculos de altíssimo nível e de difícil acesso a preços populares e, por isso mesmo, de formar um público para o teatro, achava razoável se pensar em termos de políticas públicas, em um festival que trouxesse para a música aqui neste Estado o mesmo prestígio, o mesmo entorno, a mesma preocupação. O que até agora não aconteceu. Uma pena. O que está faltando?
De qualquer maneira nem tudo são rosas e tem vozes discordantes quanto à eficácia do festival, justamente no que se refere à formação de público e a produção local.
Creio que ai as críticas estão centradas no significado dos grandes eventos em si mesmos; quer dizer, que o público somente se mobiliza a participar de coisas grandes, dos ditos mega-eventos, traduzindo-se num comportamento de rebanho e não exatamente num público que se formou pra as produções teatrais, para a cultura, para um interesse de formas e conteúdos da linguagem teatral, evidenciando as produções locais - já que um festival desse porte, por se tratar de um evento ligado aos órgãos de cultura do município, necessariamente, tem de ter o seu objetivo ligado ao estímulo à produção também.
O que se comenta então é que o público espera o festival para assistir os espetáculos, deixando os teatros vazios, ou quase, durante o ano todo, o que não sustenta uma cena e desestimula qualquer iniciativa no setor. Para a produção local é a morte.
Claro, guardadas todas as virtudes de um festival dessa magnitude, realmente, o que sobra é pouco, pouquíssimo. Além do que, os grandes patrocinadores e apoiadores só se interessam por esse tipo de evento para selarem as sua marcas e logotipías.
Há que se repensar o Em Cena de forma que ele cumpra com uma finalidade política para o teatro no Rio Grande do Sul, que se sabe, longe demais dos grandes centros, sem circulação e sem interlocução com o resto do país. Aliás, não só Em Cena, aqui exposto como a grande vitrine, mas sim todos os organismos ligados à área da cultura, que se façam mais audaciosos, mais arrojados, estimulando sim a circulação dos espetáculos, a exemplo do que já aconteceu com os intercâmbios com Buenos Aires. por exemplo. Aliás, capitaneados pelo mesmo, o incansável Luciano Alabarse.
Para ligar uma coisa com a outra, o de cima com o de baixo; quando estava secretário de cultura em Uruguaiana organizamos um primeiro projeto de permanência no Centro Cultural da cidade, um projeto de música, aos finais de tarde dos domingos. As pessoas que não estavam acostumadas com aquele tipo de evento, mas que se motivaram em prestigiar, num primeiro momento, perguntavam, ou sugeriam: ué...Não tem bebida para vender aqui? ou, Pô, tem que vender cerveja aqui! Pois é... E acabaram assimilando a idéia de que nem tudo se movia dessa maneira.
E eis a grande questão dos bairros ditos boêmios de Porto Alegre: Ter ou não ter...
Cerveja ou cultura?
E é só isso?
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