FOTO DE GABRIELE LEMANSKI/FORUM SOCIAL MUNDIAL

O CIRCULO DO PODER

 

O circulo do poder retesou

Papel pega-mosca

Dinheiro de plástico

Cabo de aço

Anônimo fundo falso

Um depoimento

Sem nenhum valor

 

Ai valor!

Eu te dou um sorriso estampado

Com a cara no tempo

Com o olho rasgado

No horizonte aramado de Gaza

Contrito e envergonhado

Num vagão de metrô.

 

Vertical, incisivo,

Grosseiro é teu traço

O sexo, a arte,

O centro, o periférico,

O belo, o balaço,

A palavra, o tráfico

No mundo conversor

 

No passaporte

Esse tempo selvagem

Bate e mistura bem

O veneno

É Brasil...

Diminui um a mais

Somos mais um a menos

O continente africano

 

Eu devolvo a Europa

Não me chamo América

Transbordo tudo

Eu fora da linha, no alvo

Não salvo, nem morro

Não sou cultura, nem nada,

Só te quero vivo.

 

Vivo, e vivo na devoragem

Na tradução dessa dor.

 

Rio/abril de 2005

 

E OS PORCOS VOARIAM!

Ficou bem difícil escrever qualquer coisa esta semana, pelo rumo que tomaram os acontecimentos, pelo o que se leu e escreveu em todos os jornais brasileiros e em muitos blogs multiplicados à sombra desse episódio que assombrou a cidade de São Paulo e que colocou a todos nós brasileiros numa situação de inconformidade: uma a realidade posta à mesa, por demais fria e oportunista.

Estamos todos boquiabertos com o que se viu e se ouviu a respeito, e com o que ainda se lê, sem dúvida alguma. Não há mais consonância nem à esquerda nem à direita de nada e coisa nenhuma; aliás, o que mais seria, ou para que serviria esse antagonismo ideológico hoje, a saber, que o poder não significa mais exatamente o que há algum tempo atrás sabíamos; só pra demarcar feridas ainda abertas de um passado recente, manchado pela intolerância dos regimes de exceção que tanta dor causaram, pela ignorância, pelo deboche de uma elite fajuta que prima pela violência sub-entendida na indiferença com que olha os problemas sociais desse país e por que mais ainda? Pela estrutura intelectual de alguns, pela herança dos sonhos que recebemos, de todos os que pensaram um mundo mais justo e mais humano?  

Ontem à noite conversávamos, eu, Totonho Villeroy, e o ator diretor de teatro Marcos Barreto, comentávamos a rapidez dos acontecimentos, a rapidez com que a nossa percepção diante desses fatos se altera, ou nos aturde em nossa sensibilidade a ponto de nos deixar sem ação ou sem saber o que realmente pensar. Vocês lembram de um episódio na televisão, que aconteceu há muitos anos atrás, quando em uma entrevista coletiva com um dos nossos presidentes militares, acho que foi com o General Geisel (ou foi o General Golbery?), a atriz Dina Sfatt, que participava daquele encontro, surpreendeu o Brasil, quando declarou na cara do general presidente que tinha medo dele, medo do regime, medo dos militares? Naquele momento ali, Dina Sfatt se tornou um símbolo do povo brasileiro, expressou o que todos nós sentíamos com seu  rosto forte, marcado por aquela situação  expressando aquele sentimento comum a todos, de forma intensa e profunda, e com uma sinceridade que desnorteou, constrangeu o general presidente.

Coisas assim acho que nunca mais veremos, porque por pior que tudo seja, sabemos que a falta de clareza que nos envolve, no máximo, arranca manifestações como as da atriz Fernanda Torres, para usar como contra-ponto de épocas distintas, numa entrevista ao Globo de ontem 18/05/06. Perguntada sobre a crise política e como ela estava encarando tudo isso, respondeu que: “Eu juro que me sinto uma idiota, uma ignorante. Eu não sei para onde ir nem o que pensar. Eu não sei formar um quadro”.E alguém sabe? - Pergunto eu. Com abrangência?  Não. No máximo, movidos pelas nossas convicções e pelos fatos em si, tateamos a escuridão e assim nos certificamos de que o monstro que se esconde em sua profundeza é muito mais terrível do que se imagina.

Tenho citado em alguns escritos aqui nesse blog o sociólogo polonês Zigmunt Baumman, por acreditar que a analise que ele tem feito das sociedades modernas, dos estados e do poder da globalização são procedentes; quando ele fala no deslocamento do poder e de sua invisibilidade.

De qualquer forma o fato político se resume a sua insignificância cada vez mais evidente, e isso acelera ainda mais a percepção de um novo poder, do qual o poder paralelo, por exemplo, é apenas um resumo, mas uma representação simbólica veemente do processo da globalização, que inclui basicamente tudo: narcotráfico, tráfico de armas, tráfico humano e muito mais. O jogo político é desmascarado por si mesmo, com rudeza, pela sua ganância desmesurada. Ele perdeu o poder e a dignidade, se é que um dia teve.

É difícil mesmo saber onde estamos e para "o que" estamos, mas também é difícil aceitar passivamente os novos espaços de interesse, onde o mundo vira somente mercadoria à disposição ou não, gerando uma violência abusada por se entender capaz de constranger milhões de pessoas, de constranger governos e as forças de repressão desses governos, ou de usar esses Estados-Nações apenas como poder de polícia para resguardar os interesses locais para o livre exercício do mercado do capital globalizado.

Vou copiar um capítulo aqui do livro do Senhor Baumman chamado Globalização-As Conseqüências Humanas, por entender que esse assunto está muito relacionado com o momento com o qual estamos passando aqui e agora. E não gostaria, poderia, mas não, de interpretá-lo, contextualizá-lo, mas prefiro publicar assim, justamente para que não se misture aa minhas outras considerações. Na verdade não vou publica-lo integralmente, mas tópicos que considero relevantes, de suma importância para essa reflexão.

A Hierarquia Global da mobilidade

 

 Lembremos mais uma vez o que Michel Cozier assinalou muitos anos atrás no seu primeiro estudo sobre O fenômeno Burocrático: Toda a dominação consiste na busca de uma estratégia essencialmente semelhante - deixar a máxima liberdade de manobra ao dominante e impor ao mesmo tempo as restrições mais estritas possíveis à liberdade de decisão do dominado.

Essa estratégia foi outrora aplicada com sucesso por governos estatais, que agora, no entanto se encontram do outro lado do processo. Agora é a conduta dos ‘mercados “– primordialmente das finanças mundiais – a principal fonte de surpresa e incerteza. Não é difícil, portanto ver que a substituição dos Estados territoriais “fracos” por algum tipo de potências legislativas e policiais globais seria prejudicial aos interesses dos “mercados mundiais”. E assim é fácil suspeitar que, longe de agirem em contradição e guerra uma com a outra, a fragmentação política e a globalização econômica são aliados íntimos e conspiradores afinados.

A integração e a divisão, a globalização e a territorialização, são processos mutuamente complementares. Mais precisamente são duas faces do mesmo processo: a redistribuição mundial de soberania, poder e liberdade de agir desencadeada(mas de forma alguma determinada) pelo salto radical na tecnologia da velocidade. A coincidência e entrelaçamento da síntese e da dispersão, da integração e da decomposição são tudo, menos acidentais; e menos ainda passíveis de retificação.

E por causa dessa coincidência e desse entrelaçamento das duas tendências aparentemente opostas, ambas desencadeadas pelo impacto divisor da nova liberdade de movimento, que os chamados processos “globalizantes” redundam na redistribuição de privilégios e carências, de riqueza e pobreza, de recursos e impotência, de poder e ausência de poder, de liberdade e restrição. Testemunhamos hoje um processo de reestratificação mundial, no qual se constrói uma nova hierarquia sociocultural em escala mundial.

Comentando a descoberta feita no último Informe da ONU sobre o Desenvolvimento de que a riqueza total dos 358 maiores “bilionários globais”equivale à renda somada de 2,3 bilhões mais pobres (45% da população mundial), Victor Keegan chamou o reembaralhamento atual dos recursos mundiais de “uma nova forma de roubo de estrada”.

Se – como observou o crítico americano – os 358 decidissem ficar cada um com U$ 5 milhões para se manter e distribuir o resto, praticamente dobrariam a renda anual de quase metade da população da terra.

 

E os porcos voariam!

 

Bom para concluir, acredito que daqui bem pouco tempo a gente não se surpreenda mais com os acontecimentos nem se sinta incapaz de discernir - não por estarmos acostumados e sim por sabermos - afinal de contas do que esta se tratando quando assistirmos uma série de barbaridades como essas e não tivermos, como agora condições de fazermos nem um tipo de avaliação.  Vamos saber sim, ou melhor, dizendo, na verdade, já estamos sabendo, a dúvida, no mínimo, é parte de um processo. 

Claudia, me and Mel.

Rio de janeiro, Outono, Dia das Mães e Frango ao Curry com Purê de Maçã

 

 

 

Pois é para ficar assim: reflexivo, em meio a um Rio de Janeiro cinza, chuvoso, desconhecido - ontem à noite eu ouvi o pipocar de metralhadoras aqui perto – a atenção contrai a musculatura, os olhos não piscam, você fica esperando a outra, o que vem a seguir, e que normalmente é seguido mesmo de estampidos de outros calibres, tipos de armas diferentes, explosões, mas às vezes não,... Como essa. Fora só isso: apenas uma rajada, uma comemoração no Dona Marta, talvez. Dia das mães. E mãe todo mundo tem, ou teve um dia.

São Paulo em chamas! E que podem se alastrar pelo país todo. Devaneios políticos, o circo dos homens públicos excede, se excede. Amanhã tem prêmio Multishow da MPB no Municipal. Tapetes vermelhos. Não se fala mais na fome do Garotinho, já foi, passou com tal rapidez que... O Rio continua lindo...E desconhecido, estranho. Não é o Rio da praia, da alegria, do samba, é um Rio que espera, um Rio que vive o seu outono de alguma maneira, irreconhecível.

 Na rua onde moro, apesar de ser uma pequena rua em Laranjeiras, é uma rua, com trafego, com barulho, uma ruínha à toa, mas importante para o transito do bairro. Sabe como é? Entra lá, sai aqui.  Nos acorda às 08hs da manhã, impreterivelmente, pulsa a cidade inteira, nos dá um resumo da metrópole. O sol, hoje, aparece de vez em quando, dá as caras, tímido, e some. Como se dissesse –Não, não é a hora ainda.

Ontem foi um domingo tranqüilo, na verdade foi um fim de semana tranqüilo, apesar de tudo (a vida continua). Mas, especialmente ontem.

Porque as datas comemorativas? Claro, para nos fazerem parar, pensar, lembrar, refletir. E comprar, lógico.  Ontem foi o domingo dedicado às mamães, um dia, portanto, para se estar em família e junto a ela comemorar, celebrar a vida, no mínimo, já que e figura materna em síntese significa a própria vida, a geração. Isso, assim, dito como se essa fosse a condição de todos nós, e a gente sabe que não, mas de qualquer forma é isso, o que encerra o significado do dia de ontem. Para o bem ou pra o mal.

Restaurantes cheios, de mães e filhos, avós, pais, enfim...O esperado. E o inesperado? O que nos surpreende? Pois, justamente, a condição humana de podermos abstrair, melhor dizendo, de necessariamente precisarmos abstrair, para podermos prosseguir em nosso cotidiano, cercado de todas as adversidades possíveis e inimagináveis. Tudo muda, nem que não percebamos inicialmente, mas tudo muda.

O Rio de janeiro quer dizer alguma coisa, quando se comporta outonal, interiorizado, reflexivo. A atenção aflora. Debruço-me sobre a janela e observo a rua, e as pessoas que vivem nela; por ela; que são dela; fazem parte. Todos nós. Eu na janela sendo observado por outro olhar perdido não sei onde, de outra janela, de alguma esquina...E, em junho tem a Copa do Mundo, em outubro eleições, e nós onde vamos parar?

Vinha vindo do aeroporto agora, a cidade e suas ruas cheias de gente, cheias de tudo. Os cariocas, quem são os cariocas? Eles são todos os que vêm de todos os lugares para viver aqui, nós somos os cariocas, o povo, os nascidos aqui e os que nasceram em outras cidades brasileiras, os que vivem nessa cidade, que faz com que todos nós sintamos como é e o que é ser um carioca.

 E isso é muito divertido.

Ontem eu e a Mel fizemos um almoço pra D. Claudia, a sua mãe. Lá pelas tantas ela (a Mel) abre o forno - eu estava cuidando dos filés de frango, temperei, botei no fogo – Ela olha, vê, e pergunta – Pô pai que negócio é esse que você botou em cima do frango? Ah... É curry – respondi inocentemente - Curry?  Perguntou com uma cara de espanto. Mas, pai...Continuou ela – Não vai dar para fazer o prato que eu queria fazer agora! Quase chorando... Eu a olhei, sua mãe também... Meu deus, o que eu fui fazer? Colocar curry no frango para mim é uma coisa normal, estabelecida: frango=curry, sem curry não dá, falei num muxoxo. Mas, claro, o prato era dela, e agora?  Falei: - A gente lava o frango! NÃO! As duas gritaram. Nada disso! Fica assim mesmo! “Ordenou” a Mel. Pisquei pra Claudia. Tiramos o frango, pegamos guardanapo de papel e tiramos o excesso. É, eu tinha me excedido, coloquei uma camada grossa de curry, para ficar mais douradinho, sacumé? Um pouquinho de manteiga e tal...Curry não combina com purê de maçã! Falou a Mel. O que? Perguntei indignado - mas como? Se frango na mostarda combina com mel, porque não frango ao curry com purê de maçã? Argumentei. Porque não - respondeu ela, e era isso – esse não é o prato lá do “Polonesa”! Falou - restaurante em Copacabana, onde ela gosta de comer esse prato e que ela estava (cá entre nós...) “co-pi-an-do! ”  - Tá...Não é o lá do Polonesa, mas, estamos criando outro, agora, pô... Muito mais criativo...Tentei dar uma volta. Esquece... Tudo bem pai! Falou rispidamente . Foram as suas últimas palavras, para co-mi-go!

Sai de fininho, peguei um jornal, me servi de um chimas.

Elas abriram um vinho e ficaram “matracando” por ali. Sentia-se no ar aquela “tensão”e aquele cheirinho inconfundível de curry.

Em meio aquele climão, o almoço ficou pronto: o frango, a salada, os molhos, etc.

Ficou tudo uma delícia. Elas adoraram. A filha ficou satisfeita ( não sei se ficou orgulhosa de mim, bem que podia né?), humm pra lá, humm, pra cá, e eu com aquela cara de super entendido no assunto, mas, humilde ao mesmo tempo, aquela humildade paterna, sabe como é? Ficou legal hein? Perguntei. Pô... Ótimo papi!  Falou ela com um sorriso amarelo (curry, heheh). Huhum...Comentou a Claudia, ainda saboreando o prato.

É, eu sabia – disse - frango ao curry vai bem com purê de maçã!

Não ouvi nem um pio. Logo pintou uma desconversa, coisa e tal.

Mas a  a foto aí de cima não deixa dúvidas, é uma prova de que tudo acabou muito bem.

Cafézinho, sobremesa...Tudo certo.

Graças a Deus! 

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