
Ligia Rigo em MEHRDA PRESIDENTAS
texto do austríaco Werner Schwab/Die Präsidentinnem
numa montagem de Camilo de Lélis
Tenho escrito muito, e muitas coisas diferentes. Tenho me experimentado variado em muitas formas. Uma simples correspondência, uma indignação, um texto poético, outros informativos, algumas críticas... Acho que, mais uma vez concluo, o blog tem sido o estímulo, o espaço confidencial, aberto e provocador.
Quando perguntei à Drica novo – cantora, compositora e web-designer responsável pelo meu site – o que seria possível fazer dentro do site para torná-lo mais vivo, interativo – ela me respondeu direto, à queima-roupa: “faz um blog que a gente põe um link lá”. E foi o que aconteceu. Mesmo assim, a Drica colocou um guestbook para acusar as impressões dos “transeuntes”. E mais, me garantiu que está estudando uma forma de colocar um Chat. Será?
As vezes isso tudo me assusta, me constrange um pouco, mas, na maior parte do tempo, realmente, tem sido um grande exercício criativo e organizador de idéias, disciplinador no aprendizado da escrita da nossa língua em sua complexidade. Um momento de reflexão, troca, convívio – por mais incongruente que possa parecer – rico de sentimentos, afeto, de surpresas, de entrecruzamento de inteligências, pensamentos e manifestações.
Tenho escrito sobre mim, sobre o entorno, sobre outras pessoas, feito críticas ao que dizem, ao que manifestam, tenho apoiado, tenho me colocado contra, enfim, tenho vivido intensamente esse momento em que me entrego totalmente a essa volição. Mas, o que poucas pessoas sabem é que tenho me dedicado a escrever, isso já há mais tempo, textos, roteiros para o teatro, me arriscado na dramaturgia. Na realidade, ainda pouca coisa: terminei duas peças e encaminho a terceira.
O teatro, assim como o cinema, foi à gênese do que considero uma escolha minha, a opção de ter seguido uma carreira artística - dentro daquilo que vim a descobrir mais tarde que seria a música; a expressão para qualquer coisa que viesse a se manifestar como uma necessidade integral de comunicação.
Pois bem, esse “texto” tem circulado em ambiente muito restrito; poucos amigos, pessoas que tenho admiração e que estão ligadas de uma maneira ou de outra a produção teatral, entre elas, um grande amigo, uma grande diretor de teatro do Rio Grande do Sul, um pensador de primeira linha, um provocador: Camilo de Lélis.
Em vários momentos trabalhei com o Camilo, seja como músico e compositor, fazendo trilhas para espetáculos como: Mehrda Presidentas, Maria Degolada, entre outros, ou como cantor e ator, como no musical Jacobina. Mas, em todos esses momentos, a sensação de identidade com as propostas dele, sensação de irmandade que começa pelo tempo - somos do mesmo ano, classe de 54 -, portanto, vivemos, guardadas todas as particularidades, praticamente as mesmas coisas, foi sempre o que mais me excitou. Somos nascidos na década de cinqüenta, temos plutão em leão, e sobre, a Claudinha (A Astróloga Claudia Lisboa, mãe das minhas primeiras duas filhas, Luna e Mel) poderia dissertar muito bem, o que, em resumo, explicaria bastante tudo.
Há dois anos mais ou menos, quando terminei “O Tubo”, primeiro texto que escrevi para o teatro, uma das primeiras pessoas a ler foi o Camilo. Gostou. Falou-me ele, em uma primeira oportunidade, que havia gostado, se divertido com a história, com os personagens, e era isso.
Sempre quando voltávamos a nos encontrar ele fazia um comentário ou outro sobre a peça e tal, mas, eu achava que o Camilo tinha ficado com uma minhoca, um será? E porque não? Até que um dia outro qualquer ao nos encontrarmos novamente, ou talvez falando ao telefone, o amigo manifestou a idéia e a vontade de montar o texto. Imagina...Adorei, achei legal, o maior barato, mas... A vida foi nos empurrando pra frente.
Fui secretariar a cultura em Uruguaiana. Saí. Vim-me de volta ao Rio e aqui estou...O Camilo por sua vez fez o que tinha que fazer, entre outras coisas, assumiu, no início do ano passado, a Coordenação de Descentralização da Cultura no governo municipal de Porto Alegre.
Em minhas idas a Porto Alegre, volta e meia trocamos algumas palavras, por telefone, ou ao nos encontrarmos pelas ruas da cidade.
Em minha mais recente visita, por ocasião do lançamento do dvd BBNV - Camilo estava lá no teatro, mas não nos vimos - nos falamos por telefone depois, foi exultante: “Bebeto, vamos montar O Tubo?”, nem pisquei – Claro! Te ajudo! Vamos conversar.
Tive que voltar ao Rio e desde então temos trocado vários e-mails.
Estarei de volta ao sul no final deste mês, quando, estarei fazendo um concerto com a Orquestra de Câmera do Teatro São Pedro, mas, também, estarei reunido com o Camilo acertando os ponteiros da montagem dessa peça.
Pelas mãos do Camilo, e eu não poderia estar em melhores mãos, talvez, eu tenha a oportunidade de ver um texto meu montado, iluminado, incorporado em um palco.
Se isso realmente vier a se confirmar, e quero crer que sim, será um grande momento. E, a exemplo do que acontece hoje, entre o Vagner Cunha e eu - uma parceria estimulante entre eu e o Camilo pode vir a gerar uma nova perspectiva na nossa trajetória.
Não é pouco a ansiedade.

Orquestra de Câmera do Teatro São Pedro de Porto Alegre
Regente Titular e diretor Artístico: Antonio Carlos Borges Cunha
A Orquestra do TSP, o Vagner Cunha e Eu.
Foi uma experiência muito bonita ver o empenho do Vagner em desenvolver uma linguagem orquestral para as minhas músicas, e o entusiasmo do Maestro ao regê-la. Foi demais. Um estímulo, um encorajamento.
Agora, mais uma vez, sou convidado a fazer parte de um recital com a orquestra, com os arranjos e a cumplicidade do Vagner. Sim, porque passado alguns anos e muita conversa, desenvolvimentos de idéias, troca de experiências e o florescimento de uma grande amizade, posso afirmar, sem sombra de dúvida, que esse concerto vai servir para firmar uma grande parceria.
Se no primeiro concerto as minhas músicas foram a substância para os arranjos do Vagner e a interpretação da orquestra, neste momento, são as nossas idéias, e o desenvolvimento das afinidades em torno delas, o substrato para que as músicas possam ser, mais uma vez, revestidas por esses tecidos finos.
O que está sendo proposto vai além de um simples concerto, de um simples recital, mas sim um conceito de música e poesia que o Vagner e eu estamos buscando; uma linguagem, um espetáculo, uma idéia, que passe, além do caráter formal de um compositor, ou uma orquestra e a interpretação disso, uma concepção de vida, uma filosofia.
Acho que temos uma nova história aqui - que nos permitirá enxergar bem mais que uma simples leitura orquestral da obra de um compositor -, um desafio proposto pelo Vagner que, tenho certeza, vai envolver o Maestro Cunha e a Orquestra do TSP nesse processo de criação, incomumente, presenteando ao público um raro momento de música cameristica, extrapolando seus contornos habituais.
Um concerto de idéias.
Esse concerto vai acontecer dia 28 de maio no Teatro São Pedro, em Porto Alegre.
Ah, além da orquestra, os músicos que trabalham comigo no Blackbaguanegovéio também participarão, são eles: Marcelo Corsetti-guitarras, Luke Faro-bateria e programação e Rodrigo Rheinheimer-contrabaixo.
NEI DUCLÓS/Poeta e Jornalista
“A Ditadura Dentro de Nós”
Eu visito sempre um amigo, todos os dias eu o leio... E fico pensando no significado do afeto, do respeito e da admiração, sentimentos que, além de produzirem outros sentimentos, tão nobres quanto; produzem identificação e com ela, tudo o que envolve estímulos, entusiasmo e referências.
Pois, a última postagem do Diário da Fonte do poeta Nei Duclós, no blog www.outubro.blogspot.com, é um texto reflexivo em toda extensão literal da palavra – o que também reflete, como a um espelho - e mais, é uma confissão assumida de responsabilidades, de cumprimento ou não, de papéis que assumimos, de reconhecimentos de nossas fraquezas, vícios; uma reflexão profunda do significado da falta de integridade no ser humano. Não dá para ficar alheio, passar ao largo. É uma manifesto, uma exclamação.
O motivo da indignação do poeta foi o mau uso, segundo ele, de textos e idéias de suas, para combater, ou defender o governo Lula.
No alto de sua experiência como jornalista, acostumado às redações dos maiores jornais e revistas do nosso país, Nei explica que, na realidade, ele combate é a ditadura que não nos abandonou não, mas, que se mantém de todas as formas no jogo político e econômico, azeitando as engrenagens do poder, e o pior, instalada dentro de nós, no nosso organismo, como um vírus de uma doença crônica.
Ele é taxativo e confessional quando assume que não é um homem integro e sim, um homem partido, pois, - “sobreviver a 42 anos de ditadura não recomenda a integridade de ninguém”.
Nei se torna, nesse momento, pra mim, ainda mais importante como referência, como exemplo a ser seguido, pois mostra a sua fragilidade em nossa complexa humanidade, sem receios. Nada há mais a esconder.
O que ressalta é a coragem e a dignidade.
Não deixe de visitar esse blog e ler esse texto. Além de ser uma pedrada na vitrine do poder, é um sol que aquece o nosso coração, emociona.
Como sempre.

Samuel Beckett
CURTAS E COMPLEMENTARES
A semana que passou foi marcada por homenagens no mundo todo aos três gênios da dramaturgia mundial que revolucionaram o teatro no final do século XIX , início do século XX, aos dias de hoje, numa coincidência de datas.
Ibsen, Beckett e Brecht.
Aqui no Brasil: montagens, leituras de textos e peças e muitas matérias de jornais cobriram essa efeméride.
No Globo, onde saiu extensa matéria tomando quase todo o espaço do caderno de cultura, pelo menos, uma curiosidade me chamou a atenção. O admirador e amigo de Beckett, o diretor de teatro Gerald Thomas lembra que a obra de Beckett derrubou o crítico de teatro do New York Times, Walter Kerr.
O crítico que durante 25 longos anos reinou, fazendo lotar os teatros, ou derrubando espetáculos, pediu demissão, renunciou ao cargo, ao perceber que tinha feito uma avaliação errada da obra do autor irlandês. Ele se despediu do público reconhecendo Beckett como o mais importante autor teatral e, que “Esperando Godot”, peça que ele havia derrubado quando encenada na década de 50, era, na verdade, a mais importante peça do século. Pediu desculpas a tantas vidas que ele possa ter arruinado, obliterado. Um reconhecimento desses, seguido de um gesto tão dramático é digno de reflexão. Imaginem... Um tempo em que a verdade valia alguma coisa. É... Que descanse em paz.
Beth carvalho faz sessenta anos e ganha capa do Segundo Caderno; isso porque reclamou: “Porque quando Chico e Caetano espirram são capa do Segundo Caderno, e eu, que completo 60 anos não posso ser? ” O título da matéria : Vou Festejar! O repórter escreveu ao fim da matéria: “claro que pode. E merece. Quem somos nós para contrariar a madrinha”.A matéria é uma demonstração de consciência da cantora. Clara, límpida, leve, ela tece seu comentário sobre os anos de trabalho e das artimanhas da indústria fonográfica -"sem visão e bom gosto" -, segundo ela. E mais: se arrepia só em pensar que se não fosse ela ter "madrinhado" Zeca do Pagodinho, Nelson do Cavaquinho e Jorge Aragão, talvez eles não existissem. “Vivemos um processo artístico fonográfico defasado”, afirma. E eu concordo: Defasadíssimo madrinha, e também , muito desafinado.
Agora...esse negócio ai de segundo caderno e suas apostas, me lembram uma outra situação lá no RS. Será que alguém aí "dos pagos"poderia me dizer ao que estou me referindo?
E eu to aqui “reciclando” essas coisas que saíram nos jornais cariocas porque acho que são importantes, interessantes para todos. E sei que nem todo mundo, fora do Rio de Janeiro, tem acesso a essas notícias, ou se tem, tem também recicladas por jornais locais.
Acho que os blogs são importantes nesse sentido: como um espaço virtual, que amplia a nossa faixa de informação ao infinito, e supre os distanciamentos, trazendo a interlocução para uma outra esfera.
Aliás, saiu também, aqui, num caderno de domingo, uma reportagem sobre a geração batizada por: “Yeppies”, geração 21, Young Experimental Perfection Seeckers, que vale uma releitura,um post no blog, e farei, depois, com certeza, pois se trata justamente disso: as novas tecnologias, o acesso a elas e os seus efeitos no comportamento humano hoje.
Ai essa milonga que se alonga em mim
Me deu um olho rápido pra eu te olhar assim
Te ver ouvir nos trilhos donde o mundo vem
Destrambelhado e louco trem a transformar os troços.
TUM TUM TUM

MARCELO D2
Conversa ao pé do umbigo
O JB pegou pesado na sua ânsia de vender jornal, que se sabe em uma grande crise que se arrasta já algum tempo e faz das tripas coração para se manter em pé, ou, melhor dizendo, nas mãos dos leitores.
Um dos maiores jornais do Brasil que já abrigou tantos nomes, e ainda abriga, do jornalismo brasileiro não podia estampar uma capa (JB de hoje, domingo) com uma chamada de uma matéria com o Marcelo D2, com uma frase, onde ele investe contra o Caetano Veloso, literalmente: “Caetano Veloso usa artistas novos para renovar sua carreira”. Bom, já é sabido o “pega” que ocorreu entre os dois, por ocasião de uma festa de entrega de prêmios da MTV, e creio, que já também superado. Por isso a surpresa da frase.
Abrindo o jornal, páginas centrais do caderno de entretenimento, onde está a matéria com o cantor e franco-atirador, mais contundência. Nos Box: “ Para mim quem não vende nada não é independente, é fracassado mesmo”. Mais, “Não quero nem saber, quero ser bem-sucedido. O rap que eu conheço, principalmente o americano, me ensinou isso”. Isso seria o suficiente para sabermos bem o que significa hoje a industria do disco no Brasil e o comportamento de seus , digamos,” produtos de sucesso”. Acho que o Marcelo D2 mereceria resposta imediata e à altura de sua ingênua e cruel vontade de polemizar. Uma crueldade feita à das crianças que matam passarinhos com estilingue, que tomam das mãos das outras seus brinquedos preferidos, que as assustam. Porque é impossível que ele não soubesse que o Brasil é um país repleto de artistas, de músicos e compositores, com uma diversidade cultural complexa e que o espaço de circulação do que se produz no Brasil em termos de música de boa qualidade dos mais variados gêneros e estilos, não é democrático, muito antes pelo contrário.
Não é o que vende o significado de qualidade e nunca vai ser, pode até ser, mas não é o que se comprova. Mas estaria de acordo com os exemplos citados por ele ao comentar o rap americano, por exemplo, justificando esse tom de deslumbre com a moeda que só mostrou, a principio, a ele, talvez, uma das suas faces; a melhor, a mais prazerosa. Até por ali. Quer uma formula? Sorte, oportunidade, investimento = sucesso. Não computamos qualidade porque qualidade não faz parte necessariamente dessa formula.Mas, veja bem: se fosse isso realmente o que deveria ser comentado aqui.
Acontece que se você vai ler a matéria não é exatamente isso que está sendo dito, pelo menos não dessa maneira. Os comentários, por exemplo, relacionados à questão do que vende ou não, se é fracasso ou não, tem um endereço certo que é para dois componentes do Planet Hemp, que por motivos que não vale a pena citar aqui, levaram o cantor a desancar dessa forma, só que: perigo! É claro que alguma coisa transcende o contexto e fica picando na área. O jornalista e a linha editorial foram sacanas. A meu ver, fizeram chamadas típicas de uma jornalismo marrom.
Quanto à chamada de capa para a matéria, vale a pena citar o contexto, para mostrar o tamanho do prejuízo que poderia ser contabilizado para o Marcelo D2. Comentando uma pergunta, ou melhor, nem mesmo uma pergunta, mas, um comentário do jornalista sobre “ um modismo da burguesia intelectualizada de achar genial tudo o que vem da periferia, da favela e de qualidade duvidosa, contrapondo a arte de artistas como: Cartola e Candeia, que também representavam essa cultura, mas, de maneira mais sofisticada “, Marcelo D2 fala do funk carioca diz seu porque sim e porque não, fala da postura da classe média e para ilustrar, comenta um show que ele participou com mais outros dois artistas “bagaceiros” num ambiente de milionários que é a Daslu – loja de produtos de griffes caríssimas - em São Paulo. Ai ele fala: “ Claro que alguns artistas se apropriam disso também. O Caetano é mestre. Sempre pega alguém para dar uma renovada na sua carreira. Mas não estou falando que isso seja picaretagem “.
Pessoal, isso é muito distante do que apelativamente o jornal mostrou em sua capa. Não precisava. Se eu o fosse o D2 ficaria puto.
De qualquer forma o que se estabelece é que também, de verdade, todos os rumos do que pode ou não, do que deve ou não, do que vai ser ou não na industria da música no Brasil, continua sendo formatado nos grandes centros do país, e mesmo os mercados ditos regionais, perdem em força, por mais efervescente que sejam, por mais lucrativos, não são nada.
A entrevista do D2 é mais uma que mostra toda ignorância do que acontece em volta, num país tão grande e tão diverso como o nosso. Conversa ao pé do umbigo.
E a semana passada eu vi um documentário sobre o Glauber Rocha...Realmente, como disse o Jabor: ” o Glauber não ia agüentar viver isso, um mundo movido pela economia, pelo mercado”. Todos concordam – Ele faz falta.
To com o Chico Buarque, ao comentar a performance do Gil como Ministro, que apesar de algumas duras críticas vindas de alguns setores da cultura, o elogia, faz referências a projetos que estão em andamento no Ministério, que envolvem o país como um todo, numa tentativa de interpretá-lo e amplificá-lo.
Quero acreditar que algumas mudanças importantes venham a ser estabelecidas sim pelas políticas públicas para área da cultura ainda, e talvez por isso, e só por isso, votaria de novo em Lula, para que não deixem, por exemplo, que argumentos, por mais contextualizados que sejam, como o do D2 em relação aos artistas que estão fora da indústria, ou sobre o significado do que vende ou não, sejam interpretados como uma máxima, ou uma verdade intrínseca.
Aí não feijão!
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