BY RICKY BOLS
180 GRAUS
Sempre quando faço uma postagem, ela nunca está definitivamente pronta fico mexendo até encontrar o ponto. Explico isso porque, provavelmente, as pessoas nunca lêem o mesmo texto até ele se acomodar no fundo, tranqüilo, até eu deixá-lo em paz. Essa última postagem ( abaixo) - A Boca Escreve - na verdade, é uma versão escrita de uma seqüência de video-poemas que tenho feito com uma webcan, em casa, e que estão disponíveis para baixar no site para quem tiver afim.
No caso, um processo poético longo, que escolhi publicar assim em formato de texto e não em video, o que seria esperado do: "A Boca". De qualquer forma é mais uma afirmação em torno de uma idéia (a minha) de um Brasil ao sul do Brasil, pouco visto, pouco traduzido, pouco interpretado. Sem nenhuma queixa disso, mas sim, cheio de constatações, de afirmações e leituras.
Acho que "180 graus"como o batizei, é uma antítese, por exemplo, da estética do frio do V. Ramil -músico, compositor e escritor gaúcho-, que é sensível e bem intencionado, mas, que, na minha opinião, é excludente, pueril, ao nos diferenciar pelo exótico - como aquelas traduções horríveis de um "Brasil tropical", no exterior, das bundas das mulatas e coisas e tais, a nós pelo inverno (sic), e por tudo que isso sugere?!
Creio que 180 graus se soma a complexidade de uma cultura diversa mas cheia de similitudes, a exalta na verdade. Mesmo porque, de todas a maneira, é evidente que somos um só país, rico, plural e multifacetado, e nós, brasileiros ao sul do Brasil, ainda, somos uma bela novidade como intérpretes dele.
Acho que quase cheguei lá, não sei, ainda tenho dúvidas. Mas o que quero dizer com isso é que com esse texto fecho a idéia de um novo trabalho, e que se tudo andar como manda o figurino, até o final ano, no máximo até o início do ano que vem, vai estar na rua.
Bem, eu sei que tem coisas que não devem ser ditas, especialmente quando se falam de planos, mas, eu sempre vivi um processo em que fiz deles alguma coisa socializada, compartinhada, pré-anunciada e, nunca me arrependi disso. Até porque é isso mesmo; um processo - nesse caso agora - publico e notório.
É isso.
Leia ai embaixo!

A BOCA ESCREVE
Eu sou do limite do olhar
Pousado em 180graus
Sou da periferia do Brasil
Da legião estrangeira
Sou da Várzea, sou da beira
Eu inauguro o pensamento
Atravesso suas pontes todo o santo dia
Contrabandeio
O mundo de novo, de novo, e de novo
Sou pura prata, a lingua corrente
Sou a ponta da lança de Sepé Tiarajú,
Guarani, um charrua, um selvagem armado de dentes
E quem mais eu devereria.
Eu sou eu, somos nós, eu sou tu, essa paisagem
Sou da terra do vento que assovia
Eu sou lã, sou Tupã, e eu diria
Do fio da ponta da adaga que talha
Um facho de luz em viagem
Periférico, eu sou Quintana, sou Érico,
E tudo mais passarinho
Sou tamanha fusão, outro tino e moinho
Sou a ausência de toda presença
Eu me lixo, eu me fixo
Sou da nova milonga uma prova
Sou o tal contrabando, a explosão de uma super nova
Do Porto de todas as tribos
Sou o pano de fundo, o amálgama
Sou o barro do Uruguai
Sou do Rio de Janeiro, os navais
Eu sou Cova e da Cova da Onça
Eu sou a dança e os tambores de Maçambique
Em Osório e terra de Sto Antônio, d’ali
Sou a Loma e os poetas do litoral Sou o Ivo ladislau
continua...
Outros termos carnavais guaibas
Do Nelson coelho de Castro e de muitos mais
Eu nomino, eu cito, eu incito
O que me é por direito, por uma questão de respeito
Sou o Mauro Moraes, e não sou mais de um, nem consenso
Quem de bando já foi...Dos sentidos, um sexto!
Eu incenso , outra história
Que nos brilhe a memória
Outra estrela da ponta cabeça
Cruzeiro do Sul, uma luz, sou o céu oriental de pingentes e mantras
A Teiniáguá das Furnas de Salamanca
Sou avô e a conjugação do futuro perfeito
Sou do piso ao teto, tábua por tábua
O artesão e o arquiteto.
Nem tão longe nem tão perto...
Sou um tiro de fuzil no muro
No céu do azul profundo, outro furo
Um desmundo rompendo de cada um, um de cada
Caudaloso verbo e mais nada
Sou a voz bonita da Iolanda
Tão perto da sanga quarando os lençóis.
Sou os anzóis e os lambaris,
As camas das varandas dos pátios espanhóis
Os banhos de rio...
O que nem me lembro, o que virá.
Sou milongo e milongueiro o tango sol africano
Um quebra cabeça e mais nada
Sou todos nós, sou da Vila do Rei, o Antonio
Sou pé sujo e bolicho de estrada
O perfeito do imperfeito, Gelson Oliveira, o feitiço e o feiticeiro
E me sou como sou, água adentro e por inteiro, lua cheia e enchente
Sou-me assim e assim levo tudo por diante, meu Brasil sul brasileiro


Nelson Pereira dos Santos/Karine Carvalho e Malu Mader
Brasília 18% ou, a arte de denunciar o óbvio.
Ontem escrevi uma página sobre um filme que tinha visto recentemente em Porto Alegre numa das salas da Casa de Cultura Mario Quintana: Brasília 18% de Nelson Pereira dos Santos, mestre do cinema contemporâneo brasileiro, precursor do cinema novo, diretor de filmes como Rio 40 graus e Vidas Secas e hoje ainda, um “imortal” da Academia Brasileira de Letras.
Brasília 18 % graus se serve da denúncia de uma obviedade para afirmar a profissão de fé de homens como esse grande mestre do cinema nacional.
O maior prazer de ver um filme como esse é: sentir as filigranas de prazer do próprio cineasta ao fazer mais um filme e, mais do que um filme, uma tela, uma partitura, um toque autoral, uma assinatura da história do cinema brasileiro nas telas dos nossos cinemas, hoje.
A trama nos envolve num clima de sensualidade, ou sexualidade e fantasia, e mais do que simplesmente fantasia, o compromisso de realizá-la, nem que seja pela força, que o poder exerce. Tudo se mistura, e o poder político, como sua própria alegoria representada no filme, nos revela o seu inconsciente.
Mas, na verdade, esse texto não vai mais ser só sobre o filme, só sobre Brasília 18%, nem só sobre Nelson Pereira dos Santos, nem sobre uma interpretação pessoal. Um pequeno, mas fatal acidente de percurso me fez repensar tudo. Fez-me pensar sobre o ato de escrever, o seu significado, sobre a sensação de impotência e incredulidade quando se está escrevendo e, por um descuido, uma desatenção qualquer, você perde tudo o que escreveu. Putz! Aperta uma tecla errada e, puf! Tudo desaparece. Você só tinha salvado até a metade e perde o resto do texto. Pois, foi o que aconteceu comigo ontem, terminado tudo, acertado toda à parte de ortografia, corrigido, passado os olhos várias vezes, dei um “control c” para copiar e postar e...Foi.
Você fica meio bobo, tentando entender onde errou, tentando achar que a inteligência dessa máquina é capaz de tudo, até de guardar em algum cantinho de suas entranhas eletrônicas isso que você acabou de jogar fora para sempre, e que não tinha salvado. Bem capaz! Um computador pode fazer muita coisa, mas mágica ainda não. De qualquer maneira tentei de tudo, pelo menos tudo o que eu sabia, do que seria possível para resgatar, vasculhar em sua memória, ou, em aquilo em que ele mesmo poderia considerar como lixo. Será? Nã na ni nã na! Fico imaginando o computador censurando tudo: Não isso ai não...Se passou! Fora! Lixo! De verdade fui desatento e perdi. E chamei pela coerência, vou ter que mexer em tudo, enfocar o assunto de uma forma diferente, algo que me leve a acreditar de novo no que estarei escrevendo, e achei que devia era, ser o mais honesto possível e, comentar justamente isso.
Um texto a gente não repete, são coisas que se vão para sempre, pois se trata de uma emoção única, um momento único.
Ai veio um incrível arsenal de cobranças: porque você está fazendo isso? Porque escrever estupidamente dessa maneira? Porque publicar um blog? Porque se expor assim? Porque passar por uma sensação de perda dessas?
Porque... Não pensem não que é assim qualquer coisa perder o que se está criando; não, não é não; é uma perda que nos consome, que nos esvazia, que nos deixa mal. Sim, porque quando você está envolvido dessa maneira, é como se você estivesse fazendo uso de uma droga, e uma droga muito forte que você nem percebe o estado de alucinação que você se encontra, ou só percebe quando termina a tarefa, e fica ainda por algum tempo envolvido com esse estado de excitação, ou, se de repente você é chamado a realidade, ao cotidiano, a uma rotina, de uma forma ou de outra.
Eu não dormi direito a noite passada, muitos pesadelos, agitação, pensando no que eu iria fazer, sobre como eu iria reescrever. Eu perdi um texto que considerei bom, que eu gostei de ter escrito, que fazia justiça a obra de uma grande criador, que iria postar no blog e que muita gente iria ler e, quem sabe, provocar a vontade nas pessoas de ver o filme, ou se, caso já tenham visto, fazer uma nova reflexão. E ai, mais cobranças: porque essa agonia? Você não é um escritor, não é um jornalista, como se atreve? Porque? Porque? Porque? Meu Deus... É de rir.
Imagens belíssimas em meio a uma história banal no centro da corrupção política do país. A história: Um médico legista que vem ao Brasil para desvendar um mistério através da identificação de um corpo, da confirmação da morte de uma funcionária de um figurão de Brasília; um poderoso senador envolvido em grandes falcatruas, o mesmo tipo de falcatruas recorrentes no noticiário de nossos telejornais e diários brasileiros. Nada de mais, ou melhor dizendo, nada demais que a gente já não esteja careca de saber.
Enquanto escrevo agora fico me lembrando da situação em que se expõe o marido da governadora do Estado do Rio de Janeiro, "Rosinha Garotinho",ou D. Rosângela Mateus, um dos candidatos a candidato à presidência da república pelo PMDB, Anthony Garotinho ao se declarar em greve de fome; acossados que são por fortes acusações de desvio e favorecimento de dinheiro público a ONGS frias, a programas de tv ligadas à igreja de políticos aliados, favorecendo empresários que apoiaram financeiramente suas campanhas políticas e tantas outras sujeiras. Trágica se não fosse uma situaçào beirando o ridículo. Fico me lembrando das declarações do presidente Lula, inclusive, sobre esse episódio e da sua ironia e deboche em relação à greve de fome do marido da governadora. Da situação em que se envolveu todo o partido do governo dentro e fora dos limites da administração no caso do “valérioduto”. Vem-me a cabeça a imagem no Globo de hoje, do Geraldo Alckmin em peregrinação pelo nordeste, ajoelhado junto ao túmulo do Monsenhor Sá Barreto...
Volto a Brasília 18%: é incrível, pois é necessário sim que se mostre o óbvio sempre, que se reflita sobre ele, que não se deixe – ele - passar em branco; algo assim a que estejamos acostumados, algo que faz parte da natureza do povo brasileiro, do cartão postal, da paisagem do nosso país.
A corrupção criminosa que mata cidadãos nas filas dos hospitais, que joga o povo na miséria e na violência, que tira as crianças das escolas e que nos deixa a todos com um sentimento de impotência, e a que esses homens de qualidade e caráter terríveis, mascarados pelo trabalho gradativo de amortecimento do nosso povo, a todos nós cidadãos brasileiros, serve. O que eles sabem que a gente não sabe? O que faz com que um homem público aja de forma tão hedionda?
O filme mostra essa força contrária a toda humanidade na assinatura do médico legista a uma outra mentira abusada do poder, ele, coagido pela violência faz o esforço maior de ir contra seus fantasmas e contra uma realidade que ele supõe adversa aos fatos científicos. O corpo não era aquele, portanto quem está sendo incriminado não está mais, e de um incriminado a um incriminador é o próximo passo.
O filme é uma ficção enquanto obra de arte, mas mostra o compromisso de artistas como Nelson pereira dos Santos na arte da denuncia também. Os “instantâneos” fotográficos se não são a própria vida, como numa obra de arte outra, como um quadro pintado por um mestre, ou por um outro artista de exceção, são para que a gente possa apreciá-la em sua representação, na visão desse artista.
Atores como: Malu Mader, Karine Cavalho, Othon Bastos, Carlos Alberto Riccelli, Bruna Lombardi, Carlos Vereza, Otavio Augusto, Bete Mendes, Michel Lamed e tantos outros, batizados em seus personagens com nomes como os de: Olavo Bilac, Machado de Assis, Augusto dos Anjos e outros ilustres da história e da cultura brasileira de todos os tempos, traduzem o humor do grande diretor e mais, esses atores - mais do que um elenco - são: uma veemência crítica e uma estética, um conceito de cinema. Na realidade eles são cúmplices do diretor na sutileza, que em meio à representação dessa violência, empapa a nossa sensibilidade imperceptivelmente.
O discurso final de Augusto dos Anjos, personagem representado por Michel Lamed, o artista-cineasta preso sob acusação de ter matado sua namorada Eugênia Câmera, interpretada por karine Carvalho - economista ligada ao todo poderoso senador da republica, envolvido em escândalos de favorecimento e desvio de recursos do orçamento da união, ao qual a personagem trouxe a baila, ao conhecimento público - nos redime em nossa sensação de impotência, nos traduz, a nós artistas, como representantes sim de uma silenciosa maioria, que, sem voz, através da nossa indignação, ecoa, no mínimo, nas telas de qualquer cinema, ou onde estiver passando Brasília 18% , ou ainda, onde existir o gesto de consideração pelo humano. Nos justifica.
Por isso talvez, a necessidade de expressão é maior, e o imperativo de racionalizar, de organizar o pensamento, transcende toda a abstração, transcende todo o sentimento de impotência e nos dá vontade e motivo extras para não nos entregarmos a nenhuma sensação de perda e sim a todos os motivos para continuar a fazer o que deve ser feito; mesmo que seja aqui, num espaço pequeno, particular, diferenciado, mas, pra mim nesse momento, o melhor lugar do mundo.
Comecei a falar do que não iria falar mais e da sensação de perda e terminei falando de que se não falarmos, se não insistirmos, estaremos concordando em perdermos e isso não é possível não.
Não mais.
Gineceu
Florescimento,
Luz azul da manhã.
Extrair tudo do escuro, iluminar, clarear a sombra, o ouro.
O carvão aceso que incandesce o breu, a noite que foi ontem, a barra do fim do dia,
O movimento, o claro-escuro.
(Vagar tal felino de garras afiadas e andar atento, lento)
Corpo, agilidade, salto, lua negra feminina da criação. Ligar o lindo, ler a mão.
Animais na escuridão.
Respirar o ar das plantas noturnas que se abrem aos sentidos.
Perfumes, cheiros, sons, arrepios, sussurros,
Ouvidos-gineceu
As palavras, as carícias, pernas, bucetas-flor, molhadas, túmidas, espargidas...
Ungidas pelo toque da música, do instrumento mestre que dedilha, arpeja e acaricia,
Em leves toques doces da experiência, paciência...
Ritmando um tempo inequívoco, completo, circular.
Negros cabelos, pele alva, olhos, ópio, sonhos...
Resina agridosatíva, saliva de banhos lambuzados da paixão. Sombra! Penumbra! Ação!
Pele, calor, iluminação, líquidos, transpiração.
Negro verão, sol negro, negativo em imagem revelada.
Quem é? Quem tu? Quem eu? O outro, o mesmo, o antípoda e o quem mais.
Nada, nada toca, nada transcende, nada explica, nada assim...
Nada de nada de coisa nenhuma.
Nada é só um fato.
Uma palavra jogada na vidraça de vidros moles, plásticos que afundam;
E jogam de volta o que seja, o que se arremessa, sem som, sem sentido.
Outra realidade, outra dimensão:
Paus moles devorados
Na imagem virtual do oposto,
Da superdivindadefeminina, pela seda, sedução.
Nós, entre nós,
Puras, tristes e finitas punhetas
No desmaio do fim
do amor
|