Renato Falcão, diretor de FESTA DE MARGARETTE, em ação.

Foto extraida do site www.filmik.com

A Festa de Margarette.

 

Existem coisas, principalmente na arte, que, feitas sem pretensão, estabelecem a  exceção no melhor dos sentidos; se sobressaindo de forma ímpar, singular, significando, indo além das suas próprias medidas, atingindo uma vitalidade atemporal. Esse é caso da Festa de Margarette, filme realizado por Renato Falcão no qual se desdobra ainda como diretor e fotógrafo.  

Nascido em Passo fundo, interior do RS, e morador de Nova Yorque, junto com a mulher Regina e a filha Julia, há treze anos, Falcão tem o dom de fazer com que coisas, que em  um outro ser humano, em condições como as que ele se encontra, talvez, super focariam, ou super dimensionariam as "qualidades de uma superficie plana" com toda arrogância, tornem-se, através do seu jeito coloquial, com seu tom leve, mas de aguda sensibilidade - calorosas coisas humanas de riquezas diversas - como se nada estivesse acontecendo; aproximando o mundo, trazendo ao nosso convívio uma percepção de espaço, onde nós todos, seus ocupantes, somos sua parte e sua expressão dentro de uma naturalidade absoluta. Nada de frescura, nada de celebração de personalidades, mas sim, prazer pela inteligência e pela beleza. A vida em sua forma mais evidente e bonita.

O seu filme é  bastante isso também:

Pela forma, um filme mudo e em preto e branco, uma homenagem clara aos primórdios do cinema. Uma alusão a Chaplin que, se não chega a se constituir em uma homenagem ao grande mestre,  o é em referência, num exercíco cinematográfico incomum para os dias de hoje, despretenciosamente -  e ai entra o trabalho de ator do Hique Gomez que estabelece essa aproximação de maneira natural, sem esforço.

 O personagem Pedro, interpretado por Hique, que, com a aproximação do aniversário de sua esposa Margarette- interpretada por Illana Kaplan - sonha em lhe proporcionar uma grande festa.; essa é a história central e, em torno disso, as peripécias em que Pedro se envolve, ou é envolvido, confundem sonho com a realidade, transformando-se em uma "surrealidade" de uma beleza de cenas e fotografia impar, incomum, quase que indescrítivel. Emocionante.

    O filme é genial, e a generosa recepção com que e a crítica carioca o recebe, depois de quatro anos do seu lançamento e muitos prêmios pelo mundo afora, lhe confere o reconhecimento que pouquíssimos filmes da nova cinematografia gaúcha ,ou mesmo nacional e quiçá internacional, díficilmente encontram; apesar das dificuldades inerentes ao formato - a inusitada estética primordial do cinema universal - flui o conteúdo em sua crítica social ambientada na simplicidade de uma vida pobre, mas, saborosa, se é que se pode falar assim de uma vida representada em sua mais completa carência e necessidade, talvez, pelo que há de mais ingênuo e puro nos personagens de uma fictícia cidade do interior gaúcho. Uma alegoria do povo brasileiro, em sua constante luta em se manter em pé, assoberbado por políticas e por uma "modernidade "sócio-econômica que lhe tiram todas as possibilidades de uma vida mais tranqüila e digna, aqui e agora. Uma tragédia comum nas sociedades modernas, que transformam seres humanos em dejetos, em refugo.

Acho que, além de salientar as qualidades do filme quero aproveitar para  (ah, eu não posso deixar de comentar a trilha sonora  criada pelo Hique, é sensacional! Pois nesse caso, além de ser a grande condutora da história, ela adentra, fazendo parte daquele universo. Como numa das cenas mais engraçadas e tocantes: no café da manhã, com as crianças, o personagem Pedro, executa e rege, junto com a trilha, as crianças, que tocando em suas afinadíssimas xícaras, enriquecessem a parte percussiva de um saboroso chorinho composto por Hique. Demais!) me debruçar sobre algumas questões ligadas à produção cinematográfica de uma maneira geral.

Queria, de fato, aproveitando, a estréia da Festa aqui no Rio, é, fazer um comentário sobre as produções de cinema no RS de uns tempos para cá. Nada de coisas técnicas, nem teóricas sobre o cinema em si, mas, digamos, da parte "filosófica", da intenção. 

Não me arriscaria a falar do que não entendo, mas sim do que que salta aos olhos quando tocados por um filme como A Festa de Margarette.

De uns tempos para cá se convencionou nas produções desse cinema (só para refrescar a memória: em seu histórico, filmes como - Deu Pra ti Anos 70, Verdes Anos, Inverno, e tantos outros, que fizeram com que a cinematografia sul brasileira se tornasse uma realidade, foram protagonizados unicamente por atores e técnicos do RS, oque lhes confere originalidade ) simplesmente ignorar os atores gaúchos como protagonistas, com raríssimas exceções e muitas figurações, o que espanta, indigna, frustra. Sei que - para citar oque pode ser um fato importante para substanciar esse argumento -  o diretor de Crime Delicado, o Invasor, entre outros, - Beto Brant - está filmando no Rio Grande e se utilizando somente de atores e, mais radicalmente ainda, de não-atores gaúchos e técnicos. Então...O que aconteceu nesses últimos anos, que fez com que a Casa de Cinema, por exemplo, um “ templo” da produção cinematográfica do sul só faça esse tipo de bobagem? Praticamente, só se utilizando de atores globais para protagonizar suas produções em detrimento de bons atores no RS, se comprometendo, diante de uma leitura, agora, mais crítica ainda, mediante ao que está sendo produzido e mostrado no Brasil? Fetiche? Vaidade? Viabilidade financeira, Sucesso? Subordinação ao mercado? Seja lá que tipo de resposta seria dada, qual delas, em múltipla escolha, deporia contra uma atividade que, marcadamente industrial , serviria de esconderijo para as mais obscuras pretenções de seus realizadores. A Accorde Cinema e Televisão, realizadora de  Diário de um Novo Mundo,com dois prêmios na última edição do festival de Gramado, entre tantas outras, incluindo o meu dvd Blackbagualnegovéio, escorregou na mesma casca de banana, foi picada pelo mesmo mosquito. Dificuldades de financiamento? Ora...  Mas, acho que, acompanhando essa postura, faz-se visível uma crise "do que dizer", de conteúdo, de reflexão que se traduz, nessa postura colonizada, chata e arrogante também. Atores globais vendem e é público seguro? Será que isso se constitui ainda numa "verdade"?  Eu acho que não, e os exemplos são muitos e claros. Muito filme alicerçado em nomes de atores conhecidos, naufragam em sua própria  fragilidade de filmes ruins, sem nada que os sustente, por outro lado, para citar outro: Cinema, Aspirina e Urubus, como antítese. Tudo se resolve. Porque? Esse é um tipo  de pensamento que, passado para a música, e para todas outras pontas da criação artística,como dogma, seria uma verdadeiro desastre, uma calamidade. E essas questões estão vindo à tona com força, junto às novas realizações do cinema brasileiro que estão sendo produzidas ou, que foram lançados nesses últimos dois, três anos, portanto, não é chororó não, é uma constatação, e todo mundo sabe.

Mas, quero entender que nem tudo está perdido e, que nunca é tarde para se fazer um mea-culpa e ir adiante; e também, que é sabido que muita gente não se comprometeu dessa forma.

Ouvi falar do filme do Beto Souza, Cerro do Jarau, que não vi, mas, as poucas coisas que li a respeito dizem ser um filme que, apesar de muitos tropeções, se arrisca, e que necessariamente 100% do elenco é 100% “POLAR”.

Sem xenofobias, e muito menos ao contrário, ao inverso, como essa "ode à festa dos caranguejos", que, apesar da eficácia, da inteligência da campanha da marca de cerveja, mostra esse espírito gaúcho de “puxar pra baixo” aquilo que pode vir a ser um sucesso longe dos pagos. Isso associado à identidade é uma bomba. Me refiro a um comercial de grande sucesso no sul do Brasil onde uma marca de cerveja fabricada lá, com a máxima "for exportation" estampada no rótulo, tem seus planos de "sair" do estado sempre solapados por  um grupo de ficcionados bebedores da tal marca - "Sair daqui? Bem capaz..."  

De qualquer forma  o que estou tentando expressar é, sim, um contra preconceito, sem estímulo também a qualquer espécie de " reserva". O RS tem ótimos e talentosos atores que as produções cinematográficas deveriam apostar mais; e misturar, fazendo com que esse profissionais possam trocar experiências e  ampliar as suas oportunidades. Um ganho para todos, sem dúvida. Claro, que isso não seja uma condição, mas, que, também, o inverso também não o seja - é esse o ponto. 

Mas, voltando ao início, a Festa de Margarette é uma redenção, um  motivo de satisfação, e uma constatação de que o cinema produzido no sul Brasil pode atingir a sua maturidade e ser respeitado pelas suas propostas, pela sua estética e por sua ousadia. 

            Renato Falcão não faz concessões e muito menos alardeia isso e se esparrama com sua  Festa de Margarette!

            Um grande exemplo.

            É isso.

 

Ah, ontem, depois da sessão, fomos ao Aurora em Botafogo, e depois ainda, à casa da poetisa capixaba Elisa Lucinda junto com a sua produtora Joana. Foi quase que um sarau não formalizado. Mas a poetisa, ou , não seria poeta mesmo? Exuberante - com seus brilhantes olhos verdes que se sobressaem na sua negritude explícita, pele de ouro-sol -,  nos alimentou com a sua palavra, com sua forma de "se" recitar, na poesia do livro a ser lançado: A Fúria da Beleza. Sensacional! Valeu Elisa, obrigado pela noite memorável!      

foto chupada da Revista Aplauso

Teddy Correa

Músico, compositor, lider da banda de rock gaúcha Nenhum de Nós e diretor artístico da gravadora Orbeat do grupo RBS.

            Um lugar onde a caretice e a má informação são questões polêmicas

 

Li, e estou relendo a matéria que saiu na APLAUSO do mês de abril, revista de cultura editada no RS, com o Teddy Corrêa, líder da banda de rock gaúcha Nenhum de Nós. Não gostei do que li, tanto que estou relendo, agora , para me certificar se é isso mesmo. Infelizmente... É.

            Quero fazer um contraponto ao que considero uma sistemática "caretização" e uma volta(sic) total ao conservadorismo mais funesto que possa ter existido em qualquer tempo no nosso estado, sem erro. Uma ditadura de uma estúpida juvenilização alimentada há anos pelas rádios locais, que nos envelheceram a todos precocemente ou ainda, nos juvenilizam idiotamente, há muito tempo e que hoje se sacraliza.

Uma ditadura arrogante travestida com estilo e linguagem hoje – moderna, por assim dizer – como deve ser o modelito, se utilizando de nomes, artistas, que por interesse pessoais assumem outras posições nas pontas da produção cultural e que ingenuamente, ou não,  levam  a cabo um projeto que contemple também, na medida em que o mercado possibilite - nas palavras do próprio Teddy  - numa tentativa de emulação e empatia: “ajudar outros artistas jovens a se lançarem”. Soa mal. Isso é leviano e irresponsável da parte dele, pois, em primeiro: o mercado nunca “ajudou” ninguém, ou vende, ou não vende; ou, ainda  mantém artistas que se afinem com as políticas e numeros estabelecidos, ou um outro viés qualquer: amizades, identificação, etc. A gente sabe que nada acontece fora disso. Sem hipocrísias. Cara, jamais poderia pensar que iria gostar tanto do Gordo Miranda.

É duro de acreditar que uma publicação como a APLAUSO que se pretende uma revista de cultura no nosso estado não tenha tido um jornalista ( onde estava o Juarez Fonseca?)com capacidade de contra-argumentar, ou aprofundar questões de interesse e de tamanha importância para o momento que se vive hoje no Brasil, dentro da órbita (não orbeat, por favor) dos interesses mútuos, tanto de artistas quanto de empresários, de produtores, gravadoras e fabricantes de disco.  

Quando assumi cargos públicos, e muita gente sabe disso, tive que me repensar como artista, cidadão e servidor, e por isso mesmo, aprendido que: quando estamos nessa posição temos que ser impessoais e levar o projeto seja ele qual for, ao encontro das necessidades. Não há espaço para gostos próprios, para exclusão e beneficiamentos e sim, para a absorção, mistura, estímulo à produção e a criação.

Começo pelas posições equivocadas do Teddy numa entrevista que se deixa antever, ou um completo desconhecimento, despreparo, e falta de lucidez do cantor; ou pior, má intenção, desvio no caráter profissional e conivência com os desmandos do mercado fonográfico.

Para esclarecer, o Teddy não assumiu um cargo público governamental e sim um cargo público privado, onde, claramente as idéias giram em torno da mais valia, do dinheiro, do que vende, do interesse da empresa onde ele está empregado, portanto são esses interesses que ele tem de atender senão, está fora.   Mas, o que mais me impressiona é que nessa entrevista não existe nem a sombra de uma possível idéia contrária, nem um ingênuo - Tu achas mesmo? Do entrevistador. Fica assim, valendo como uma verdade absoluta, pairando sobre toda a ignorância entre o bem e o mal.

Ora, estamos todos sabendo das mudanças no mercado fonográfico, que de tão profundas quase acabam com ele, e pelos menos, assim como a gente o conhece e se relaciona, esta mudando radicalmente; e não é só pela venda de discos piratas, a qual o nosso herói se refere como “shopping chão”, grosseiramente, se utilizando de uma imagem que demonstra um preconceito e não uma análise séria do que representa o valor de um disco, na ponta, para o consumidor; e que ele é atraído pelos módicos dois ou três reais de um cd pirata – aliás, seguindo as tendências do “novo mercado”, um produto em extinção - contra os trinta, quarenta num "shopping real de consumo de gente de bem”.

Não quero falar sobre as outras questões “adjacentes”, por exemplo, quando se refere ao desemprego, fica claro de que lado ele está, se é que ele está em algum lado. Lado Inverso? (Desculpas Tonho, não resisti) Quero deixar claro que não é nada pessoal contra o Teddy, na medida em que isso ainda me permite ser impessoal, e sim contra as posições assumidas por ele enquanto diretor de gravadora e o significado disso num amplo espectro social e artístico desde lá.

Na verdade, ainda me pego pensando que o RS é menos do que se pretende - um outro país dentro desse nosso imenso Brasil - é um estado que são vários, muitos, heterogêneo, diversificado, não entendido dessa forma nem mesmo internamente, e que malgrado a pretensão, se torna um desinteressante gre-nal, sempre na segunda divisão.

O Teddy fala de um mercado achatado e sucatado e de que os espaços das gravadoras estão destinados aos “mega artistas”, isso além de falso é comprometedor, porque na verdade até mesmo os “mega artistas’estão deixando as grandes companhias por estarem vendo outras possibilidades, que não somente elas.

Gerenciar suas próprias carreiras, dimensionarem seu público, saborearem a liberdade de não ter seu trabalho “negociado” por idéias de executivos, geralmente estúpidos e arrogantes das companhias de disco, é um luxo só. Por outro lado isso estimula sim uma nova onda de artistas, de trabalhos , que necessariamente, não tem que passar por uma major. O problema é ficar refém de uma política de mercado como a da Orbeat que acaba determinando na região ai, por exemplo, o que deve ou não ser sucesso, claro numa relação promíscua com as rádios do mesmo sistema, televisão e jornal. É muito complicado, mas muito fácil de se entender. 

O mercado de disco hoje no Brasil tem outro comportamento, os pequenos selos se proliferam, e até mesmo um símbolo maior da música brasileira - como o é -  Chico Buarque, lança seu novo trabalho, Carioca, por uma gravadora pequena, que é a Biscoito Fino. E existem vários outros tantos exemplos que todos já sabem e não vale a pena citá-los. E seguindo o mesmo raciocínio não é  a Orbeat  um exemplo claro disso tudo? Um selo regional, fazendo um mercado regional, com pretensões de atravessar o Mambituba. Estou errado? 

Mas o que é ainda pior, numa análise tosca de mercado que o Teddy faz, é a total desconsideração de uma revolução, isso sim, desse mercado através da Internet, que ao contrário do que ele afirma, cada vez mais no mundo todo os internautas pagam por downloads musicais; o que estabiliza e super valoriza o mercado editorial, onde o produto é mesmo a música, sem suporte. Isso quase quebra a indústria sim, porque que ela não estava pronta para as novas tecnologias e a democratização do seu acesso.  Hoje se comenta de um real fim do suporte - cds, dvds e afins -, e mesmo até de uma possível transformação da canção como a conhecemos, uma estrutura musical, melódica e harmônica, característica do século vinte, que sucedeu a ópera, em seu formato. O que nos aguarda? Com certeza não é uma visão estreita que o Teddy nos aponta e que Porto Alegre, o RS, silencia, sem crítica, apático, sem voz. Podem ter certeza é muito mais que isso.   A posição de uma gerente artístico de uma gravadora é de suma importância pois, "significa"o mercado; da para ler o seu significado através da postura de uma pessoa  numa função dessas. Quando você sabe quem está dirigindo artísticamente uma gravadora, voce sabe mais ou menos o que ela pensa, como ela se comporta, como ela age no mercado. E a gente está sabendo o que está acontecendo em Porto Alegre e em todo o estado. Não existe nenhuma ousadia, não se aposta em nada criativo, novo. O RS parou? É claro que não, tem muita coisa legal, mas que não passa por esse crivo. Pena.

O que consigo perceber é que existem políticas dentro das gravadoras em apostar em um tal tipo de artista ou gênero de música, o que o Teddy deve esclarecer em relação à gravadora em que ele é diretor artístico é: qual a política dele; apesar de que é  visível nessa entrevista, e que a gravadora está servindo a seus interesses particulares também, quando lança discos seus e do Nenhum de Nós, em detrimento de , um artista novo , por exemplo. Nenhum problema (seria um bom nome de banda não?), só que se diga isso com todas as letras, e a que mais veio.

Na verdade difícil é divisar quem vem primeiro, se o ovo ou a galinha. O teddy fala que o problema não é a gravadora e sim o mercado, ora, que coisa...O que é o mercado? Se não a extensão das preocupações econômicas das gravadoras? O problema são as mudanças nesse mercado e a confusão estabelecida dentro das próprias gravadoras:  elas não sabem para onde vão, tateiam, tentam se ver num fim de túnel, onde elas sim, perderam todo o glamour; e onde uns e outros se locupletam.

O RS se tornou, apesar de todo o informalismo, e talvez, por isso mesmo, um mercado estreito para a música, onde só o que é executado na rádio - grosso modo - é o que promete público, o que está dentro do espírito do pop-rock-gaúcho-adolescente, ou a música regionalista, o resto é o resto. Então...o que está faltando entre essas duas pontas? Respondo, sem dúvida alguma:  inteligência! Se eu tivesse saudade de alguma coisa teria dos profícuos anos setenta e da rádio continental em POA, onde a caretice, a mesmice, passava ao largo. E vivíamos o mais duro momento da nossa história, pelo mesmo era o que sentíamos na época; hoje podemos perceber que apesar dos pesares, ainda os tempos podem vir a ser piores.

E mais, para concluir, ainda sobre as questões levantadas - uma outra colocação me chamou a atenção - a questão sobre as drogas, ou artistas que dela se utilizam ou ainda que fazem a sua apologia. Mais, um equívoco: uma análise, careta, infantil, superficial; também, nem de longe aprofundada pelos jornalistas que participaram dessa “polêmica” (sic) entrevista.

Acho sim que artistas que, sem hipocrisia, de uma forma ou de outra, trazem a baila questões ligadas, ao que parece ser o maior mal que permeia a vida pública brasileira, contribuindo de alguma maneira para uma discussão abrangente sobre a descriminalização das drogas, ou outras soluções que ajudariam enormemente ao combate contra o narcotráfico. A exemplo do cinema, a literatura, do teatro. Quanto ao que for estritamente pessoal, é privado e não entro em detalhes. Agora resumir isso a uma mera questão de  imagem juvenil de roqueiros drogados e glamourosos, é muito pequeno. Parece que a Orbeat mantém uma espécie de censura prévia ao conteúdo das canções dos artistas contratados, isso é inconcebível e mais ainda seria se algum deles se sujeitasse a isso

 Sem querer adentrar em outras questões que também mereceriam algum destaque, pergunto:

 

Afinal de contas o que realmente está acontecendo aí? Alô? Alô?

 

 

Fiz um alguns shows no RS, agora em abril -Uruguaiana, Sta Cruz e Porto Alegre. Para Porto Alegre inventei uma piadinha infame: Dois amigos se encontram na Cidade Baixa. Um fala ao outro – Ai camarada, vai ter show do Bebeto Alves amanhã em Porto Alegre. Ta e dai? – responde o outro – Nada... Não vamos lá juntos? A gente convida mais alguém...

- Beleza!

- Aí...podi crê.

 

 

Pois o Marcelo Corsetti hoje me perguntou quando eu ia atualizar o blog, eu perguntei porque? Ele me disse que queria saber das novidades. Putz, fiquei pensando que: será que eu tenho essa responsabilidade agora também? Isso deve ser um momento de prazer e não uma obrigação, de "ter de postar". De qualquer forma, fiquei com a pulga atrás da orelha, pois claro , gosto de escrever, mas recém chegado do sul, cansado, sentindo um pouco a diferença de clima, tentando acertar os ponteiros... Aí me veio! Claro! vou dar essa notícia a ele. Então esse texto que segue é para o Marcelo, que sei, apesar de não fumar, e de não ser um anti-tabagista, vai gostar das novidades.

      É isso...Já vi muitos textos nesse tom, muitas ótimas crônicas, mas, postando essa, é uma forma de me comprometer publicamente; mais um bom motivo para me manter na linha. Incrível a sensação de ficar algumas horas sem fumar, é como se eu tivesse tomado outra droga. Tô meio viajandão, heheh. 

Pois, resolvi parar de fumar. De verdade agora. Sei que muita gente não vai acreditar, não vai me dar crédito. Mas, aconteceu o que era necessário para que isso acontecesse. Não, não fiquei doente (espero que não!). Bateu a consciência, a tal que nos faz repensar as coisas todas, erradas, que fazemos na vida; nesse caso, não por ser errada, mas, por ser em demasia, ocupando meu tempo e minha vida. Despeço-me, aos poucos, desse vicio maravilhoso. Sei que estou perdendo um companheiro de muitos prazeres e espero estar ganhando alguma coisa, no mínimo uma sensação de bem estar, e sei que isso vai se dar beeeeem depois, o tal bem estar.

O momento, portanto, é tenso. Tem horas que não sei exatamente quem sou, posso estar exagerando, mas é quase isso. Como se sente uma pessoa que perde alguma coisa substancial em sua vida? Acho que assim – abalado! Mas o abalo vem da determinação e por saber-me impossibilitado de continuar a fumar. Não dá mais, ta na hora de parar.

As primeiras providências e condições: Limitei para os primeiros quinze dias uma dose diária de nicotina e dos outros venenos contidos nos cigarros, a cinco doses diárias, não mais; para quem estava fumando trinta, quase quarenta, e às vezes quarenta, é uma boa medida. A intenção é real. Tenho sentido, junto com um desajuste corporal, uma força me impulsionando a continuar. Faz quanto tempo já? Dois dias apenas, mas o suficiente para entender, em todos os planos, a violência que é o vício do cigarro. Tenho inveja daqueles que fumam de vez em quando, quando querem, socialmente. Bem capaz!

Lá pelo dia dez de maio, reduzo para três doses e me seguro mais um pouco, até chegar o dia de ter de agüentar... Ficar sem.

Vocês sabem porque que estou fazendo dessa maneira, ao invés de simplesmente dar uma basta? Porque quero entender o processo da abstinência, e mais ainda, de como me livrar de um hábito que se traduz em um gestual e um ritual no meu cotidiano já há um longo tempo, o que considero bem pior.  

Já parei de fumar outras vezes, fiquei até um bom período, mais de um ano e voltei, estupidamente, mas voltei. Não quero mais voltar a fumar, gastei a minha cota.

Motivado por uma hepatite parei de beber a oito anos; pois, o motivo que vai me levar a parar de fumar vai ser outro, vai ser o da alegria de ser livre e de respirar, de cantar com a voz limpa e ter uma velhice gostosa, bonita. Lembrem estou já com cinquentinha!

Poderia fumar até morrer, mas não to afim, da mesma maneira que não estou parando de fumar para viver mais, mas sim para viver melhor, ter mais qualidade de vida.

Hoje, casualmente, no consultório da minha dentista, peguei uma revista veja, creio que desta semana, e lá dentro uma reportagem sobre a guerra travada contra o tabagismo no mundo todo; uma guerra considerada já ganha e se alastrando por países onde jamais se poderia pensar que ela fosse ser considerada, levada a sério, como: Itália e França. Ainda há alguma resistência, mas frágil. Os argumentos contra o anti-tabagismo, diante dos números de doenças causadas pelo cigarro, não se sustentam mais. Soa mal. 

Sempre pensei que o direito de fumar era soberano, que as campanhas contra o cigarro cerceavam a liberdade individual, ao mesmo tempo em que eu pensava nas companhias que fabricam e vendem a droga; multinacionais poderosas que embolsavam milhões de dólares a nossa custa, a custa da nossa saúde e ignorância. Triste. Chega! Basta!   Não pode existir prazer nisso, nem pose de indignação, de rebeldia.

Não se assustem, não vou virar um anti-tabagista chato, policial, não vou deixar de ter cinzeiros em casa; nem vou proibir amigos que fumam de fumar perto de mim; ou na minha casa, mas certamente esse é um dos “prazeres” que vou descobrir e vou querer manter pelo tempo de satisfação que resta:

 

Não, obrigado, não fumo mais.

Mas , me lembrei de uma que me contaram: Uma senhora já com seus oitenta e tal, sentada na sua cadeira de balanço, agarrada num cigarrito, tirando boas baforadas ( hei, acorda! Não é piada, me contaram como sendo pura verdade)...Aí, alguem que estava perto - a pessoa que me contou - perguntou a velha senhora: Mas, Dona Fulana...Fumando ainda? Não seria hora de parar? Ao que prontamente respondeu com um sotaque sulista carregado nos erres - Mas, e eu vou morrer de que hein? E continuou pitando calmamente.

Pois é... 

 


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