Flor Noturna
Qual perfume, embriaguez...
Te abres noturna
Danças ao ritmo de um negro verão,
Escorre a tua resina
Num sonho agitado de paixão.
E perfuma...
Envenena os poros,
Promete o amor, insinua...
Flor das horas tardias,
Sul-americanas
Das camas suadas,
Em lençóis de algodão
Te como, te devoro...
Rosa-girassol e outros nomes.
Te como, te devoro...
Rosa-girassol
Ao longe, um vulto,
No calor da madrugada,
Assovia uma canção.
Ai milonga,
Uma canção
E perfuma...
Envenena os poros,
Promete o amor, insinua...
Flor das horas tardias,
Sul-americanas
Das camas suadas,
Em lençóis de algodão
Sempre a minha vinda à Porto Algre, ao Rio Grande do Sul, me provoca reflexÕes, já que meu contato é amplo e as ansiedades locais são de toda ordem e, ainda,que a minha identificação com elas são visíveis. Por esse motivo, me animei a postar esse texto que já tinha escrito para ser veiculado no site do Clube da Sombra.
Ano passado, recebi um convite da Cia Lumbra Teatro de Luz e Sombra para fazer a trilha sonora do seu próximo espetáculo, basedo na obra de Simões LOpes Neto, A Salamanca do Jarau; um trabalho que ainda está em elaboração, para ser apresentado no próximo semestre e, junto a ele, o convite de escrever alguma coisa, sobre o mais me conviesse. Escrevi mas não foi publicado, agora então, a oportunidade. Isso foi uma reflexão sobre aquele momento. Talvez hoje, a realidade tenha mudado um pouquinho para melhor, mas acredito que em sua gênese, seja ainda passível de leitura e reflexão. Portanto...Vamos lá.
Lusco-Fusco
(Uma Rápida Reflexão Sobre a Produção Cultural e Políticas de Cultura no RS)
Aproveitando a idéia, o mote, da luz e sombra, do claro e escuro, do brilho e a opacidade, dos opostos, que a Cia Lumbra-Teatro de Luz e Sombra sinaliza com o seu trabalho e com um convite para eu compor a trilha do seu novo espetáculo, quero fazer uma pequena reflexão sobre a produção de arte e cultura aqui no RS.
Proponho, nesse rápido comentário, um olhar sobre as políticas de cultura, que se estabeleceram nesses últimos anos, como um contraponto a um mercado formal de trabalho – inexistente, é claro - e, por isso tais políticas se contextualizarem numa produção que se alicerça basicamente em recursos públicos, projetos e leis que a amparam. De suma importância e grande interesse, elas se tornaram a menina dos olhos dos governos que se estabeleceram em Porto Alegre - por exemplo : por além de fomentar a produção, a absorção das atividades culturais, tiveram seu caráter social super dimensionado; caracterizado também como uma atividade econômica e geradora de empregos, naturalmente, como era de se esperar; sem exagero nenhum, sem constrangimento.
Mas, começo pela constatação de um momento difícil, delicado; momento de lusco-fusco, de imagens borradas, de pouca visibilidade e efeito, por mais contundente, por mais criativo que possam parecer ser as propostas, tanto das instituições públicas de cultura, quanto ao que está, efetivamente, sendo produzido e mostrado, agora, neste momento. Vale observar que os ângulos não devem nunca ser opostos, que as políticas, não devem ixigir seus engajamentos, o que leva a uma ideologização da arte e da cultura, inevitavelmente deixando de ser isso ou aquilo. Sinal de todos os tempos. Há que se manter os olhos bem abertos. Temos de nos ampliar, nos amplificar.
O que se faz necessário sabermos, é que junto a isso, um processo endêmico em que nos envolvemos, na busca de uma identidade, foi suprimido, superado, tanto pela busca e absorção de elementos relativos, quanto pelo surgimento de um novo mundo, moderno, tecnológico, fundamentado na economia de mercado, traduzindo-se numa nova realidade que nos relativisou; que adulterou a sua e a nossa própria auto-imagem. As distâncias se confundiram no ciberespaço, o que é perto pode estar muito longe, e o longe cada vez mais perto. De verdade? Já entendemos. No máximo, hoje, somos fundamentalistas. Ops! O que vale saber agora é: tá e daí? Para onde vamos nós agora que já sabemos tudo sobre nós mesmos? E para onde vão tais políticas? Ou isso não tem mais importância alguma, ou nos inventamos em hora errada, sempre tardiamente. O que vale dizer que: continuamos com uma linguagem cada vez mais indefinida, quando nos aproximamos de um futuro, que, certamente, já passou. Umbigos modernos, não é Nelson? Vive-se um penoso auto-engano.
Por mais que se faça um diagnóstico favorável, a respeito do significado e caráter do que se produz, e de uma possível e reconhecível iconografia, independentemente de que área for; seja cinema, teatro, música, literatura, etc., e das propostas de políticas, não há um diálogo, uma interlocução com outras regiões do país, nem com um mundo cultural e tecnologicamente próximo e, o pior, o que é inconcebível, com o próprio estado, o que nos torna umbilicais - pelo viés de uma modernidade inócua, superficial -, autofágicos e desinteressantes. Estamos a mercê do poder global, entre a velocidade da viajem desse mesmo poder e uma possível coesão social.
Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, citando Michael Benedict no seu livro, Globalização-As Conseqüências Humanas, esclarece, que uma possível interação entre essas duas pontas depende crucialmente da “estrita e primária educação -e memória-da cultura. A flexibilidade social, ao contrário, depende do esquecimento e da comunicação barata”.
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Estamos nos tornando flexíveis, não criamos interesses, representatividade, identidade com o outro, e sim estéticas frias e impessoais, vazias do ponto de vista da emoção e da emulação, que a diversidade, a troca, o convívio, o reconhecimento do traço cultural, possa provocar. O Rio Grande do Sul está cada vez mais careta tentando ser tudo o que não deve ser. Seguindo a cartilha pós-moderna do novo poder.
Quando falo em diálogo, interlocução, falo em abrangência, em visibilidade, em itinerância, que propicie o estreitamento da realidade com a sua representação.
O que está faltando para os governos e suas políticas de cultura se darem conta de que o processo de crescimento e evolução, aqui no nosso caso, passa então, muito, pelo pensamento ousado e criativo de seus homens públicos, e que um investimento, não na cultura como conceito, ou como projeto, mas, na sua veemência, na sua urgência, na sua árdua tarefa cotidiana é sim, responsabilidade do poder político constituído, das instituições públicas ligadas à cultura.
Acho que, só a partir dessa compreensão, com atitudes lúcidas e com inteligência, vamos adquirir contundência, linguagem e superar essas novas fronteiras. Os exemplo são tantos e tão antigos... Temos que cobrir todas as pontas, do início do fazer cultural, ao amadurecimento crítico.
Nós não somos centro de nada, nem de um (im)possível mercosul cultural, mas isso não diminui a responsabilidade, nem a necessidade de sobrevivência de todas as partes envolvidas nesse processo. Precisamos mudar urgentemente; abandonar velhas carcaças travestidas em modernidades pueris, ou enclausuradas em academicismos relutantes, provincianos e covardes.
Somos um lugar muito distante de nós mesmos, e isso é uma fatalidade, uma grande crueldade, pois justifica um circulo vicioso: falta de investimento, falta de interesse, ignorância, e na ponta, trabalhos que nem sempre traduzem o que nos cerca e nos significa.
Porto Alegre, como capital, por exemplo, se torna uma ilha em meio a um RS carente e distante por todos os lados, de um Brasil longínquo, não identificado, de um mundo vítreo, factual, consumido como mais uma bobagem tecnológica à disposição. Resíduos. Nada que ligue a coisa nenhuma.
Vivemos num eterno “vir-a-ser”, numa eterna adolescência do claro e escuro, da luz e sombra, do nascer e morrer constante, não permitindo que, concretamente, algo se estabeleça, que algo permaneça, como cabeça, tronco e membros de uma verdade intrínseca, longe de uma arrogante frivolidade estética, e, que mesmo sem se fazer notar, supostamente, enriqueceria o universo da cultura popular brasileira, despertando um interesse universal, superando-se. Por que não?
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Temos que matar leões a cada ano que passa, a cada governo que passa, a cada política, a cada projeto e, esperar... Esperar o que exatamente? Esperar - comendo pelas bordas - pelo “reconhecimento e oportunidade”, pelo tapinha nas costas da nossa elite econômica, pelo descaso e pelo provincianismo do poder local, seja público ou privado, pelo coquetel oferecido aos outros, para os que vêm aqui se deliciar com tanta civilidade, e para o qual somente somos convidados para fazer figuração. Não existe nada mais odioso e repugnante: tamanha incongruência, tamanha ignorância, tamanho desrespeito, tamanha falta de consideração. O tiro no pé. O despropósito
Estou vivendo fora do RS desde o início do ano passado, mas tenho vindo aqui constantemente. E desde que saí - talvez a tão propalada “visão de fora”, o distanciamento, me ofereça, neste momento, condições de sentir o que vejo: um desânimo, uma falta de perspectiva, aliada a um “foda-se”, traduzido de forma niilista, em cansaço e baixa auto-estima aumentando esse lusco-fusco - toma vulto, se faz nítida, visível sim, a imagem do descaso e do despreparo. O país todo está assim é verdade, mas há provocação no ar.
Tá, e aí? O que eu tenho a ver com isso? É que existem ossos meus por aí doendo... Amigos, artistas, criadores, intelectuais, jornalistas, etc., por quem nutro maior admiração e respeito e, destes, eu espero muito mais.
Ainda assim, para ser breve e concluir, apesar dos pesares, prefiro os opostos, o claro e escuro, o menos pior, e não o seu agravamento: o sem cor, o sem forma, o sem definição, que a falta de coragem e ousadia, nos torna cúmplices. Quer dizer: o ruim é mesmo capaz de ficar bem pior.
Citando os sociólogos Stewart Hall, e mais uma vez, Zygmunt Bauman, que conceituam a ansiedade do homem contemporâneo em “líquidas relações” na modernidade tardia, no esvaziamento e na exacerbação do consumo pelo consumo, e na incapacidade de se manter sólido e permanente, avalio esse “nem aqui nem em lugar nenhum”, mais uma vez, num todo que se desmancha no ar... Para sempre? Nesse caso, para sempre, é sempre triste.
Eu sei que mesmo assim se produz muito, mas...Pena, recomeçar tudo de novo, mais uma vez, e mais uma vez, ad infinitum, se torna o nosso único propósito e grande objetivo - o nosso melhor. Uma condição pífia de uma possível compreensão de uma modernidade que nos atinge, úmida, líquida, inexorável.
Não me lembro onde li essa citação, nem lembro de quem é, mas vale a pena revelar, para relaxar, como piada: “Quando o sol da cultura está muito baixo, a mediocridade faz sombra”.
Ui! Deuzulivre!
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