
Porto Alegre
TÁXI! TÁXI!
Foi no inverno passado, acho que, lá por julho, agosto talvez. Estava na casa da minha mãe em Porto Alegre, no Bom Fim, final da tarde; a Gabi estava comigo. Saímos em direção a Osvaldo Aranha descendo a Fernandes Vieira. Chovia, fazia um tempo esquisito, nem calor, nem frio, mas pegajoso. Na esquina embarcamos num táxi.
A Gabi levava o tripé da câmera, acho que ela vinha do Instituto de Artes. Nos encontramos ali na minha mãe para irmos até a sua casa do Menino Deus. Entramos atrás no carro, dei a direção de onde queríamos ir ao motorista; ele arrancou o táxi. Atravessou a Osvaldo, pegou a José Bonifácio pelo Parque da Redenção e, entrou na Santana para pegar logo depois, à direita, a Venâncio rumo a Getulio.
Logo que entramos no táxi e que ele deu a partida, percebi que o motorista olhava para mim com insistência pelo retrovisor Achei um pouco estranho, mas... Quando entrou na Venâncio, ele não se agüentou e lascou – Tu não é o Lobão? Um sorriso largo, os olhos brilhavam. Não! – respondi prontamente. Ah, pára Lobão( muito típico, ah pára! Bem capaz!), qual é?- respondeu de volta, olhando pelo retrovisor. Fiquei meio incomodado. Não, você está enganado – continuei afirmando - eu não sou o Lobão. Pô Lobão qual é? Eu já te vi lá no Bom Fim outras vezes, tu vens muito para cá? Ri um sorriso amarelo.Ô amigo...Já falei, não sou o Lobão, certo? Mas ai ele já nem me ouvia mais, e continuava a falar como se eu fosse o Lobão e era isso. Fiquei quieto ouvindo ele falar. Quando chegamos no fina da corrida ele continuou “mandando” – Ai Lobão...Qual é meu... A mim tu não engana..., Tu te importa de me dar um autógrafo? Já com papel e caneta na mão e eu com uma nota dez reais na minha, encarando-o firmemente – eu não sou o Lobão, voltei a afirmar, olhando fixo nos seus olhos. Paguei, peguei o troco e sai do táxi. O motorista ficou chateado e eu fiquei um pouco preocupado, será que eu estava mesmo parecido com o Lobão? Cabelo comprido despenteado caindo pelos olhos, óculos de grau com os aros pretos, grossos. É pode ser, pensei. Mas...Tudo bem, deixa pra lá. Rimos da situação.
- Vamos lá Lobão! Chamou-me a Gabi já atravessando a rua, alcançando o portão do prédio.
(continua em baixo)
Há dois dias atrás em Porto Alegre, novamente, na mesma esquina, esperava um táxi para ir visitar a Gabi. Fiz sinal para um – eu estava do outro lado da Osvaldo no sentido centro bairro, bem na frente da Fernandes Vieira - ele vinha descendo a Fernandes, fez sinal de luz e parou na minha frente. Embarquei. Enquanto eu prendia cinto de segurança, o cara me olha e me pergunta – Tu não é o Bebeto Alves? Sou – respondi. Pô cara, to todo a-rre-pi-a-do! – exclamou, passando os dedos pelo braço. É mesmo? Perguntei. Cara – pô nem sei o que dizer – falou ele, e continuou – tu não vai acreditar, mas eu pensei em ti hoje. Sério? Mas porque?-perguntei. É que ouvi “Pegadas”tocando hoje na rádio. (“Pegadas"é uma música minha lançada em um disco homônimo em 1986. Fez um grande sucesso na região sul do Brasil) Ahhh, falei. Demais! Que coisa – ele falou. Fiquei pensando...Po como é que esse cara me reconheceu, justo agora que eu cortei o cabelo bem curto.Certo, bom, já mudei tantas vezes, as pessoas já estão acostumadas com os vários” bebetos” por ai. Fiquei assim, me sentido meio celebridade, coisa e tal. Mas aí, o cara resolve me contar uma estória quando eu dei a direção de onde eu queria ir. Na esquina com a Múcio? Ali na frente da locadora? É, falei – ali mesmo. Já fiz uma corrida pra lá, para o mesmo lugar – falou. Ah é – respondi distraidamente. Levei o Lobão lá – falou. Eu olhei bem para o camarada, surpreso. Mas, ai, olha só – continuou ele, sabe o que ele me disse? Hum??? Respondi interessadíssimo. Que não era ele! Na maior cara de pau - falou indignado. Quase que dei uma gargalhada, me contive. Pô, e eu sabendo que era ele - continuou. – No início fiquei até meio cabreiro...Po entrou um cabeludo atrás com uma mina com uma cara de chapada e tinha um negócio estranho na mão, sei lá o que era, um instrumento, um microfone, sei lá, mas ai eu fiquei cuidando pelo retrovisor, quando eu me dei conta, era ele! E continuou falando no Lobão, que ele vinha muito a Porto Alegre, que o cara tinha, sei lá, algum negócio por aqui, uma casa, que estava sempre ali pela Osvaldo, no Bom Fim e tal.
- É, eu sei que o Lobão é casado com uma gaúcha – falei - deve ser por isso. Claro! To sabendo, afirmou ele. E por ai foi.
Chegamos no ponto onde ia saltar em frente à locadora. Aí – me mostrou ele - foi bem aqui mesmo que ele desceu e foi direto para dentro da locadora... Tu te importa de me dar um autógrafo? Bah, meu irmão não vai acreditar que eu fiz uma corrida contigo. Claro! Respondi. Passou-me a caneta e o papel. Perguntei o nome dele...Jorge, Jorginho, pode botar Jorginho. Peguei a caneta, o papel e taquei:
Aí Jorginho...Esse é por mim e pelo Lobão. Valeu irmão. Abraço. Bebeto Alves.
O cara deu um sorrisão de orelha a orelha – Bah, o meu irmão não vai acreditar! Desci do táxi,, Dei um tchau, um” tudo de bom”, fechei a porta e ele arrancou o carro.
Cheguei na casa da Gabi e contei o que tinha acontecido. Ela não queria acreditar. Rimos muito.Que loucura, que coincidência. Bem...Nem eu, quase que não acredito.
O único que acreditava piamente em alguma coisa era o motorista do táxi. Cheio de experiências interessantes, de causos para contar.
- Levei o Lobão! E agora... O Bebeto Alves!
To todo arrepiado!
O Elenco de Mordendo os Lábios
De Hamilton Vaz Pereira
Caio Blat-Lena Britto-Ernani Moraes-Mel Lisboa
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