MORDENDO OS LÁBIOS

 

 

Ontem, sexta-feira, fui assistir ao ensaio aberto da nova peça de Hamilton Vaz Pereira, Mordendo os Lábios. No elenco, Caio Blat, Ernani Moraes, Lena Britto e Mel. Aqui, um longo parêntesis. Seria hipócrita se não fizesse em primeiro lugar um comentário sobre a Mel, por exemplo: não me referindo a ela como minha filha, e citando-a como a Mel Lisboa, uma grande atriz, tá, tá tá, e simplesmente me omitindo dessa parte,  pois sim.

Isso é um ponto interessante, pois de longe observo a personalidade e o carisma dessa guria, com um certo distanciamento crítico, não deixando que as relações de pai e filho subvertam a necessidade de um diálogo franco, honesto e de um desenvolvimento "por si ", baseado evidentemente, em princípios que foram se construindo ao longo do tempo.

Mel tem vida própria e condições de fazer as reflexões necessárias para o seu desempenho como artista e da sua construção como ser humano, o que necessariamente não precisaria de qualquer interferência da minha parte hoje e, verdadeiramente, pouco interfiro, a não ser que, chamado a participar, ou se fazendo necessária a minha presença, tanto como pai, ou simplesmente como seu grande amigo, me dôo e aprofundo essa relação. Respeito é bom e todo mundo gosta

Fazer um comentário, por mais despretensioso que seja, de um trabalho onde ela possa estar envolvida, como é esse o caso, não me deixa indiferente, claro, à sua participação, muito antes pelo contrário. Torço, me preocupo, suo junto. Mas, também, criamos os distanciamentos necessários para que possamos dialogar, fundamentados em realidades e contornos mais variados possíveis.

Essa introdução é importante, pois nunca em momento algum coloquei publicamente a minha posição em relação à "evidência" da Mel, mais do que uma celebridade no Brasil hoje, uma pessoa querida e respeitada onde quer que ande , por sua postura profissional, pelo seu caráter e pela  sua simplicidade.

 E como gostaria de comentar esse trabalho - já que claramente ele remonta e aponta, do "cox" de uma nova condição do jovem brasileiro, assentado nos seus vinte anos e por ai, nos anos setenta, alongado, vértebra por vértebra, ao início  do seu amadurecimento enquanto homem adulto, agora, nesse conturbado Rio de Janeiro tão cheio de contradições - não poderia deixar passar  em branco esse ponto de identidade e relação nosso, não me furtar disso, até porque esse é tema fundamental de Mordendo os Lábios: as relações de pais e filhos. Me sinto no dever de nos contextualizar, nos esclarecer. Acho que devia  isso a mim e a ela. Feitas as ressalvas, vamos aos fatos.

 

(continua em baixo) 

 No início do mês de março acompanhei a trupe em uma apresentação na Lona Cultural Gilberto Gil em Realengo. Ali a peça não estava pronta, apenas os atores se jogando ao palco nu, desprovido de qualquer condição técnica, ou cenográfica, sob a batuta visível do Hamilton, assisti o primeiro ato.

Não pude deixar de sentir uma presença forte de Trate-me Leão um dos maiores sucessos teatrais brasileiros daqueles primeiros anos do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, onde além de Hamilton, se destacavam, e se destacam até hoje; Regina Casé, Luis Fernando Guimarães, Evandro Mesquita, Patrícia Travassos e Perfeito Fortuna. Jovens que então ajudaram a formatar uma identidade para a juventude brasileira, a partir de uma visão, digamos carioca da vida, mas abrangente em sua leitura e significado.

O gestual, o delineamento do espaço e das coisas pertencentes a ele dimensionado apenas pelo corpo, o humor dramático de uma realidade e o carioquês, fizeram sentir a presença do Asdrúbal.

Ontem à noite depois de assistir a peça inteira, conclui que o Hamilton tinha colocado mais uma vez essa mesma geração na roda; a geração que estava beirando os vinte e poucos anos nos anos setenta e, que agora alcança o período difícil dos cinqüenta anos. A condição: assumir o envelhecimento sem deixar que a inquietação e a vontade de interpretar e mudar a realidade que está em nossa volta, sejam atingidas. Assumir as responsabilidades, estar aberto ao dialogo e mais do que isso, propor ele; sim, a nossa geração. Engraçado, tenho um certo desconforto em me "parecer jovem", " me  sentir jovem", mas, na verdade, ainda estamos um pouco perto disso.

 Creio que o maior mérito desse texto seja esse, expor como essa geração se comporta e inaugura nos dias de hoje um novo convívio entre país e filhos e, de como a realidade em volta interfere ou é interferida. O drama se passa entre duas famílias: Bibi com seu filho Félix e, Samuel com sua filha Eleonora, respectivamente, Lena Britto, Caio Blat, Ernani Moraes e Mel.  Não há choque de gerações entre esses pais e os novos - os filhos na faixa dos vinte e poucos anos, nesse louco início de um novo século - pelo contrário há uma interferência nos dois sentidos, não falo de dialogo, mas de in-ter-fe-rên-cia., interação. A vida é a mesma, a preocupação idem, o comportamento tal e qual.

O texto denuncia sonoramente a realidade brasileira, através do cotidiano carioca, da violência, da falta de perspectiva da classe média e classe média alta da zona sul do Rio, verdadeiramente à mostra dentro do olho do furacão, fazendo da sua rotina, uma questão de sobrevivência e, além dela, a necessária alienação, também difícil, por mais incongruente.

A peça tem um ritmo rápido, ágil, apesar das suas duas horas de duração, não se sente a cadeira e a bunda doer no " não-tão-confortável " Espaço Cultural Sérgio Porto. A montagem é muito criativa. O diretor optou por misturar elementos reais em cena com outros, que só o movimento dos atores o dimensionam (como em Trate-me Leão - tipo de referencial que me agrada),  o resultado é que, visualmente, também, não se torna repetitivo, já que as cenas se desenrolam basicamente entre quatro paredes ( imagínárias, claro). O telão auxilia na composição e aprofunda a imaginação com a exterioridade (essa é muito Gil, mas vamos lá). Isso tudo nos dando uma sensação de desconstrução, ou mesmo do seu contrário.

O elenco é esperto , a composição dos personagens realça o trabalho e a maturidade dos atores no jogo dramático, timing bacana. Uma entrega de "verdades", porque na realidade os atores ali, também, estão representando facetas do seu próprio cotidiano. Um grande laboratório que transpõe, que nos atravessa e continua no mundo real., na vida de todos nós, voltando ao palco num eterno circular.

 Não vou entrar em mais detalhes, nem revelar muito do espetáculo, por esse texto não ser exatamente uma crítica e sim considerações feitas a partir de um envolvimento emocional

Senti-me representado, não pelo trabalho da Mel, do qual é claro sinto uma grande satisfação, mas pelo o que nesse conteúdo expressa um pouco de mim e da minha relação com meus filhos e da nossa vida. Pelos lugares e tempos que ele me conduz e por me saber aqui hoje presente na criação de mais um capítulo dessa geração, que na parte que me toca, apesar de uma sensação abissal, revejo todos eles (os capítulos) com muitas idéias, estímulos e vontade de dar seqüência aos próximos, ir adiante.

Pois...Continuemos.

Dá-le Maestro!

Ah...Ia esquecendo...As músicas compostas e cantadas pelo Hamilton, com produção musical do Wallace, dão o efeito de contemporaneidade que a encenação precisa. Dez!

Pai, porque me abandonastes?




Sei que no Brasil hoje, sob tamanha falta de compostura e miserabilidade dos últimos acontecimentos políticos - que num efeito cascata, se derrama sobre nós, estarrecidos, com um imperativo de subordinação, através de uma postura messiânica desse governo, que não nos quer alheios ao seu projeto político grosseiro e ultrajante, mas sim, também, coniventes, exaltando sua plataforma, destruída vergonhosa e velozmente pelo autoritarismo; e sim, porque um dia todos, mesmo os que não apoiaram tal projeto, e que por outros motivos, talvez por conseqüência, acreditaram que, por fim, iríamos encontrar o correspondente aos nosso anseios por moralidade, ética, seriedade, compromisso histórico–social e respeito, no mínimo, dos governantes que se instalaram no centro do poder, rejeitando a velhas oligarquias - exalamos indignação.


Mas, como já tinha comentado em uma outra postagem anterior, numa crônica intitulada Perebas, não sou jornalista, muito menos analista político, e não tenho a mínima pretensão. Deixo para os comentaristas políticos e jornalistas de verdade tamanha responsabilidade. Sou músico e compositor e escrevo sob o efeito de uma, digamos, consciência cívica, acreditando em seus efeitos terapêuticos, ou espirituais. O que eu posso fazer?



Pois é, mas o motivo que me leva a escrever hoje é outro. Falando em espiritualidade...



O Globo de ontem trás estampada no caderno “Boa Chance”, caderno de empregos e negócios uma matéria de capa que é no mínimo curiosa: “Executivos descobrem Jesus”.


Pois não é que Jesus virou um exemplo a ser seguido para os homens do mundo dos negócios? Não pense em religião, não pense em pregação de preceitos religiosos cristãos, nada disso, mas sim, em exemplo de liderança. Segundo a autora ,'Laurie Beth Jones, de um dos quatro livros destinados a esse segmento -“Jesus tinha uma equipe de 12 pessoas imperfeitas(os discípulos) e conseguiu coordená-las em prol de uma meta”. Não é o máximo? Ela propõe em seu livro que todos treinem a equipe do modo que Jesus fez. A produtividade ia aumentar, assim como a lealdade e a satisfação no trabalho.


- Que mundo é esse meu Deus? Acho que essa frase seria dita pelo filho, certamente, ao tomar conhecimento dessas distorções. Provavelmente a igreja católica vai se manifestar. Será? Ou aproveitar para angariar mais uns adeptos, já que anda tão por baixo, assolada pela multiplicação dos carismáticos e crentes de toda ordem e igrejas. Se bem que Jesus é o grande "link"de todas essas congregações e provavelmente isso vai indignar os fiéis da mesma forma,sejam de que origem for.


Mas, milagres realmente acontecem, e nesse episódio são os numeros da venda dos quatro títulos lançados no Brasil, com esse tema - 530 mil exemplares vendidos. É mole? Vamos aos títulos: Jesus, o Maior psicólogo que já existiu, Jesus o Maior Líder que Já Existiu, Como se Tornar um Líder Servidor e Jesus o Maior executivo que Já Existiu.


Mas, sim o reitor da PUC, Jesus(!) Hortal, indicado pela Cúria para falar sobre o tema, e o pastor batista Ariovaldo Ramos, um dos maiores dirigentes do país, segundo o Globo, se manifestaram – “É uma heresia. Não interessa se estamos falando em executivos, médicos ou engenheiros. O principio cristão não pode ser misturado com estratégia empresarial. A igreja não é feita para o lucro, e isto está bem claro no Evangelho” (sic). E segue mais adiante: “Jesus não tinha um empreendimento, tinha uma causa”. Bom, sinal dos tempos... "Neguinho" se agarra a tudo para poder vender mais, nem que isso signifique demonizar o próprio filho de Deus. Vade retro! Já pensou se a classe política, também, pega essa onda? Nada, não daria certo. Seria uma grande disputa de beleza. Muito Jesus para pouco discípulo.


Chega!

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