Caros Amigos, estou de casa nova! Novo endereço. Novo blog.

Para acessa-lo agora tem de ir para: http://www.bebetoalves.com.br/blog/blog.htm

De qualquer maneira o que está publicado aqui, aqui vai ficar. Você pode acessar tranquilamente, é só se deixar guiar pelas postagens anteriores.

Então tá.

Um abraço.

BAlves. 

Bom, problemas técnicos resolvidos, hoje é dia de retomar o diálogo no blog.

Dei uma parada estratégica para que a "pequena exposição" do trabalho da Gabriele ficasse um tempo maior, para apreciação dos visitantes. Como a artista colocou seu próprio site no ar esta semana (www.gabi.art.br – ainda em construção) e, ali podemos encontrar toda a informação sobre o seu trabalho, achei que já era hora de seguir adiante.

 

Estou de volta ao Rio, onde mais uma vez (há umas três semanas atrás, o fenômeno do frio atacou o Rio impiedosamente), apesar do sol que abriu hoje, encontro a cidade com temperaturas baixas, com gente usando roupas de inverno e uma sensação que estamos em qualquer lugar ao sul do país e não aqui na cidade maravilhosa.

Não lembro de um outro momento aqui ter feito frio dessa maneira. Claro, gripei.

De qualquer forma abriu um dia bonito. Dei uma volta por Ipanema e lá o Rio continuava o mesmo, muita gente na orla pra lá e pra cá. 

 

Um pequeno comentário aqui sobre uma banda que já é a quarta ou quinta vez que  a vejo tocar ali, na rua: A Binário. Desprentensiosa, desprendida e desimpedida.

 "Binário" é um nome muito sugestivo para uma banda muito legal que faz um pop progressivo, moderno, com um texto atualizado, explicitando e criticando o comportamento humano nos grandes centros urbanos. Muito bom. Melhor do que muita coisa que ouvimos por ai, com certeza.

Mas o comentário deles sobre o espaço que se utilizam para tocar, ou melhor, para ensaiar – praia de Ipanema na frente do coqueirão, espaço nobre da orla - foi nota dez, disseram que aquele era o estúdio deles, ao ar livre com o melhor visual do mundo e o mais bacana:   vinha com público embutido.

Palmas para a Binário que ela merece.

 

 


A PÍLULA VERMELHA



E pra começar, vamos pelas novidades da tecnologia e do que ela é capaz de mudar no nosso comportamento consumista. A febre, a nova febre de consumo da classe média brasileira e no mundo todo, é o IPOD, um aparelhinho idealizado pela Apple, a gigante dos computadores MACHINTOSH, aquela da maça, isso mesmo, que armazena músicas em formato mp3 num espaço quase que infinito. Primeiramente utilizado por aficionados por música, por aqueles que não podem passar um instante sequer sem estarem ligados a um fone de ouvido, seja fazendo exercícios físicos pelos parques e outras áreas verdes das grandes cidades ou, simplesmente se deslocando de um ponto a outro, e que, claro, podem desembolsar um valor, nem tão acessível, pelo aparelhinho que varia de 600 reais, o modelo mais simples a 2.500, um mais sofisticado que também armazena imagens.


Só que agora a moderna geringonçazinha assume um outro caráter, que é de substituir a pick-up, do Djs que se utilizam do vinil para fazerem as suas famosas festas, e que, por sua vez, substituíram os músicos profissionais em eventos do gênero, ou se criou uma outra espécie de; e isso eu ainda não sei avaliar muito bem. De qualquer forma a nova possibilidade dos IPODS já surge como uma ameaça ao reinado absoluto dos Djs profissionais. Tudo tem volta, a lei do eterno retorno.


Aqui no Rio e em outras partes do mundo, como em Londres, Pequim, Paris, e nos estados Unidos de uma maneira geral, está surgindo o fenômeno das “Pod Parties”, literalmente, Festa de Ipodes.


Inicialmente surgido em festinhas particulares, em residências, etc, agora assume as pistas de lugares “quentes” onde se põe o esqueleto para testar as juntas.


O lance é que os IPODS podem ser manejados por qualquer um, não existe segredo, é um gravadorzinho como outro qualquer, metido a besta, com qualidade digital e memória em gigabytes, que plugado a um computador você consegue tudo; o que significa milhares de músicas e ritmos num espaço virtual de acesso fácil.


Faça a sua programação, compre um mixerzinho e, pronto; você se torna um “artista”de IPODS; um tocador de IPODS e pode começar a fazer seus shows em clubes, em pistas, aliás, Ipistasnos Ilugaresque surgirão por aí, sem dúvida alguma, e ganhar uma boa grana.

A tecnologia assume um caráter democrático e desestabiliza mercados de trabalho de forma irreversível. E não falo só de festinhas, e shows, falo de um mundo onde a computação se tornou insubstituível inevitavelmente e assume o controle, da produção gráfica à produção de imagens, passando pela produção de discos, além, é claro, de toda a informatização do mundo em qualquer setor.


Mas no caso da música gera uma crise sem precedentes que está mudando radicalmente, por exemplo o mercado fonográfico.


A queda livre das vendas e objetos já considerados obsoletos como os cds, ora vejam só... Que substituiu num curto espaço de tempo o vinil, os famosos bolachões, apesar de tudo, geram uma outra possibilidade de um mercado que começa a ser visualizado e gerenciado pelas grandes empresas discográficas internacionais.


Se num tempo nem tão remoto eram os departamentos artísticos das gravadoras que decidiam, sem nenhuma interferência, o que deveria ou não ser executado nas rádios brasileiras, o que deveria ou não ser gravado pelos artistas, claro, guardadas todas as proporções e regras, hoje, são os departamentos editoriais, junto com a parte artística que assume um novo poder. O motivo é, justamente, porque a música deixou de ser um “objeto”, um disco, por exemplo, para ser tornar um “corpo etéreo”, por ironia do destino, onde ela realmente existe e é, pelas infinitas possibilidades que se abrem de negociações com novas mídias virtuais, como é o caso dos ring-tones, músicas que estão disponíveis para tocar no seu aparelho celular entre tantas outras possibilidades. É mole ou quer mais? Mais então.


O negócio dos downloads nos computadores tem sido bom e, segundo informações a que temos acesso, através de revistas especializadas: crescente.


Isso significa que, hoje tem mais gente pagando para baixar as suas músicas preferidas pelo computador do que em qualquer outro momento. E, seguindo a lógica da democracia do acesso à tecnologia, quanto mais barato se tornam essa máquinas maravilhosas e “sensíveis”, que são os computadores, mais gente, logicamente, pode adquirir um. O que ameaça também o mercado pirata da produção de cds. Já pensaram nisso?


Uma palavra que já inventei para esse processo: Devoragem. E isso, como se pode intuir, não vai parar por aí.


Imaginem que tipos de negócios possam estar sendo gerados, agora, nesse momento, nesse mundo virtual? O que as grandes empresas internacionais estão decidindo para nosso “conforto e bem estar”, a título de consumo? Onde está o controle? Onde se aperta o botão? Botão?


O controle remoto nunca foi uma representação maior da falta de poder que colocaram entre nossas mãos, daqui a qualquer outro futuro que se apresente amanhã, ou até mesmo ontem (isso importa?) para decidirmos o que fazer da nossa vida: Uma simulação. E só. Ficção? Nada, sem nenhum exagero, são os primeiros sintomas da Matrix: uma sensaçãozinha estranha, uma leve tonteira com uma ligeira inconciênciazinha quase sem importância.


A pílula vermelha que volta e meia engolimos.


DIÁRIO DE BORDO

 

 

Encontro-me em Porto Alegre, mais uma vez, em meio a varias atividades relacionadas ao meu trabalho, coisas que já tinha relatado em outros textos anteriores aqui no blog. E, por isso mesmo, quase sem tempo para escrever, para me dedicar a alguma outra reflexão que não sejam as ligadas ao concerto com a Orquestra de Câmera do Teatro São Pedro, as primeiras reuniões com o Camilo de Lélis para a montagem da peça O Tubo, texto escrito por mim e que faz um comentário sobre a questão da perda da identidade na velocidade da tecnologia de um mundo onde estamos todos sob o efeito da virtualização, da conversão da realidade em "outra" ficção, na desfragmentação do sujeito humano e mais algumas outras tantas coisas que pertencem ao trato profissional. Enfim, trabalhando muito. Mas, não posso deixar de comentar uma ou outra coisa que me chama a atenção cá por essas bandas, como, por exemplo: O anuncio do diretor de teatro e agitador cultural, Luciano Alabarse de mais uma edição do Porto Alegre em Cena, festival de teatro que acontece já há treze anos nessa cidade e que tem o compromisso de ser um dos maiores eventos culturais do Estado do Rio Grande do Sul.

 Hoje, particularmente, me sinto bastante cansado. Começamos os ensaios com a orquestra, e que vão se estender até sábado, para, na manhã de domingo apresentarmos esse espetáculo ao público porto-alegrense. Meus olhos ardem muito, por culpa do ar condicionado ligado nesse apartamento do Grande Hotel, na rua Riachuelo no centro da cidade, estrategicamente situado ao lado do Teatro São Pedro. Está muito frio sim, de bater o queixo.

Ontem à noite tive uma reunião na Cidade Baixa, bairro boêmio de Porto Alegre e tive uma boa impressão. Fazia algum tempo que não sentia uma sensação boa ao andar por ali, o que costumo fazer com freqüência quando venho a esta cidade.

Não gosto do aspecto junkie da população flutuante do bairro, que toma conta das suas ruas e calçadas, não gosto que me ofereçam drogas na rua para comprar num tom agressivo e ameaçador, não gosto de ver essa juventude que traduz um desalento, e uma falta de perspectiva, consumindo exageradamente álcool e outras substâncias. Não por qualquer preceito moral, mas sim, por me inspirar uma baixa auto-estima e uma falta de interesse em outras coisas que não sejam justamente essas: compor uma realidade baseada num equívoco e desinteresse generalizado ao que não seja única e exclusivamente diversão. De qualquer forma, como havia dito antes, achei tudo um pouco mais tranqüilo, talvez por culpa do frio, que acaba também transformando um pouco essa paisagem urbana. Gostei, me senti bem.

Mas, também gostaria de dizer que isso não é um previlégio da Cidade baixa, o Bom Fim , na Oswaldo Aranha padece do mesmo problema, o que me deixa apreensivo sem saber exatamente o que pensar. Sem entrar em qualquer juizo de valor a avaliação que faço é a mesma.

Enfim...Acho que eu gostaria de ver esses lugares com maior atividade cultural e mais diversificada, como em outras partes do mundo e do Brasil, em lugares com essas mesmas características. Para citar um exemplo próximo: A Lapa no Rio, bairro boêmio de grande concentração de pessoas das mais variadas naturezas, mas que, principalmente, a coisa cultural é o tom que converge o interesse de todos.

            Há quem diga que Porto Alegre se tornou a maior cidade do interior gaúcho e, não necessariamente a melhor.

Pois é...

   Mas, voltando ao assunto que gostaria de comentar - o Em Cena e a sua programação -, que com grande antecedência foi anunciado hoje pelo seu Coordenador Luciano Alabarse. O Festival só acontece em Setembro.

Este é o ano Pina Bausch – assim foi anunciado com pompa e circunstancia o evento que este ano traz aos palcos da cidade uma montagem da coreógrafa e diretora alemã, um dos maiores nomes do teatro-dança internacional. O espetáculo que virá, estreado em 2002,  traz o tema da infância e, ainda outras tantas montagens de textos de Becket, Tchecov, Nelson Rodrigues, Qorpo Santo, Shakespeare, Will Eno - um dos finalistas ao Pulitzer 2005 - com grupos de várias partes do mundo, do Brasil e claro, como não pode faltar, dos grupos “prata da casa”, além de oficinas e palestras. Ao todo 45 espetáculos nacionais e internacionais. Sem dúvida alguma, mais um “senhor evento”.

Há muito tempo atrás, por acreditar que o “Em Cena” fosse um festival que além de proporcionar ao público gaúcho espetáculos de altíssimo nível e de difícil acesso a preços populares e, por isso mesmo, de formar um público para o teatro, achava razoável se pensar em termos de políticas públicas, em um festival que trouxesse para a música aqui neste Estado o mesmo prestígio, o mesmo entorno, a mesma preocupação. O que até agora não aconteceu. Uma pena. O que está faltando?

De qualquer maneira nem tudo são rosas e tem vozes discordantes quanto à eficácia do festival, justamente no que se refere à formação de público e a produção local.

 Creio que ai as críticas estão centradas no significado dos grandes eventos em si mesmos; quer dizer, que o público somente se mobiliza a participar de coisas grandes, dos ditos mega-eventos, traduzindo-se num comportamento de rebanho e não exatamente num público que se formou pra as produções teatrais, para a cultura, para um interesse de formas e conteúdos da linguagem teatral, evidenciando as produções locais - já que um festival desse porte, por se tratar de um evento ligado aos órgãos de cultura do município, necessariamente, tem de ter o seu objetivo ligado ao estímulo à produção também.

O que se comenta então é que o público espera o festival para assistir os espetáculos, deixando os teatros vazios, ou quase, durante o ano todo, o que não sustenta uma cena e desestimula qualquer iniciativa no setor. Para a produção local é a morte.

 Claro, guardadas todas as virtudes de um festival dessa magnitude, realmente, o que sobra é pouco, pouquíssimo. Além do que, os grandes patrocinadores e apoiadores só se interessam por esse tipo de evento para selarem as sua marcas e logotipías.

Há que se repensar o Em Cena de forma que ele cumpra com uma finalidade política para o teatro no Rio Grande do Sul, que se sabe, longe demais dos grandes centros, sem circulação e sem interlocução com o resto do país. Aliás, não só Em Cena, aqui exposto como a grande vitrine, mas sim todos os organismos ligados à área da cultura, que se façam mais audaciosos, mais arrojados, estimulando sim a circulação dos espetáculos, a exemplo do que já aconteceu com os intercâmbios com Buenos Aires. por exemplo. Aliás, capitaneados pelo mesmo, o incansável Luciano Alabarse.

Para ligar uma coisa com a outra, o de cima com o de baixo; quando estava secretário de cultura em Uruguaiana organizamos um primeiro projeto de permanência no Centro Cultural da cidade, um projeto de música, aos finais de tarde dos domingos. As pessoas que não estavam acostumadas com aquele tipo de evento, mas que se motivaram em prestigiar, num primeiro momento, perguntavam, ou sugeriam: ué...Não tem bebida para vender aqui? ou, Pô, tem que vender cerveja aqui! Pois é... E acabaram assimilando a idéia de que nem tudo se movia dessa maneira.

E eis a grande questão dos bairros ditos boêmios de Porto Alegre: Ter ou não ter...

Cerveja ou cultura? 

E é só isso?

FOTO DE GABRIELE LEMANSKI/FORUM SOCIAL MUNDIAL

O CIRCULO DO PODER

 

O circulo do poder retesou

Papel pega-mosca

Dinheiro de plástico

Cabo de aço

Anônimo fundo falso

Um depoimento

Sem nenhum valor

 

Ai valor!

Eu te dou um sorriso estampado

Com a cara no tempo

Com o olho rasgado

No horizonte aramado de Gaza

Contrito e envergonhado

Num vagão de metrô.

 

Vertical, incisivo,

Grosseiro é teu traço

O sexo, a arte,

O centro, o periférico,

O belo, o balaço,

A palavra, o tráfico

No mundo conversor

 

No passaporte

Esse tempo selvagem

Bate e mistura bem

O veneno

É Brasil...

Diminui um a mais

Somos mais um a menos

O continente africano

 

Eu devolvo a Europa

Não me chamo América

Transbordo tudo

Eu fora da linha, no alvo

Não salvo, nem morro

Não sou cultura, nem nada,

Só te quero vivo.

 

Vivo, e vivo na devoragem

Na tradução dessa dor.

 

Rio/abril de 2005

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